Holofotes (ou Síndrome do Pânico)

Escuro
Apagaram as luzes
No meio do recital
Vozes contra o muro
Corpos pregados nas cruzes
Da Igreja, mais um coral
As vozes batem e voltam
Os corpos se debatem e se soltam
Os olhos procuram pela luz
E nunca mais se acham, afinal
As vozes se abatem e se revoltam
Os corpos se montam e se invadem

Claridade
As luzes da cidade
Iluminam o homem
Mas se apagam e, agora, somem
Intervenção divina
E cirúrgica do doutor
Do cavalo alisa a crina
Esse belo e nobre senhor
E na maca sou só mais um ator
Sangue falso respingando
Um corte pra dar legitimidade
O corpo todo suando
A farsa é, também, calamidade

Luz e Sombra
Ondulação da cobra
Do elefante, a tromba
E do viaduto, a sobra
Elefante branco, obra faraônica
Assalto ao Banco Central, sensação anômica

Vazio
Intensidade do nada
Intensidade de nada
Do nada, de nada, obrigado
Escorre o rio
A verdade calada
Um homem morrendo de frio
E a faca, nas costas, cravada