Inquisição

A bruxa queima
No fim da tarde
Na fogueira
Seu corpo arde
Ao cair na ribanceira
É levada pelo rio
O corpo afunda
E a correnteza teima
Em conduzir o seu destino
Em confundir o seu desatino
O fogo e o corpo, apagados
O passado e o futuro
Não mais respeitados
Alexandria queima
Com sua biblioteca
A insanidade reina
E Roma também queima
Cabeças na estaca
Sangue da realeza
Que se corrompe
Rios de loucura
Da represa que se rompe
E o passado não se reconhece
O povo dele logo se esquece
Toda a história apagada
Como a chama do incêndio
À pó inferiorizada
Fogo na Babilônia!
A floresta é desmatada
O museu é invadido
Noites de insônia
A mulher é abusada
O país está perdido
Só nos resta um messias
O salvador iludido
Com soluções prontas
Para estancar a dor
Disso tudo que se apronta
Talvez ele seja
Tanto a doença quanto a cura
Talvez ele não veja
Pois está cego na loucura
“Nada disso importa
Que continue a queimar
Eu sei do que precisamos
E o país eu vou salvar!”
E a gasolina escorre
E o diesel é levado
E ninguém nos socorre
Do fogo nunca apagado
Tem gente que só corre
Mas o fim está aí
No nosso peito, cravado
Nas nossas memórias, encrustado
Na nossa pele, encravado
E nos nossos punhos, fechados

