MÁS NOTÍCIAS

26–8–18, sp

O pior momento não é aquele em que o telefone toca e você o retira do gancho e leva até a orelha e escuta a voz do outro lado. O pior momento é o antecedente. O pior momento é aquele em que o telefone ainda não tocou, ou o momento em que o telefone tocou e você ainda não o atendeu, ou atendeu mas ainda não ouviu.

Esse é o momento da possibilidade infinita. Trata-se de uma impossibilidade fática, veja, mas é o que acontece e o que torna o momento poderoso, doloroso e complexo. Há apenas um fato, um acontecimento. Uma vez tenha acontecido, só há o que ocorreu. Aguarde-se a notícia com ansiedade, e a notícia nada mais é do que o relato após acontecimento, é necessariamente isso, a transmissão do que ocorreu. Aguardar a notícia é aguardar para saber o que aconteceu e a espera é a toda a dor que existe. O momento antecedente torna todos os cenários possíveis e a cabeça não falha em projetá-los e recriá-los e vivê-los repetidas vezes. Essa é a dolorida ausência de controle, ou melhor, a total ausência de informação e domínio sobre o que já ocorreu longe dos nossos olhos e que nós ansiamos por descobrir para, então, seguirmos em frente com a informação. Tudo é possível, quando nada, além do real, é possível. Este é o paradoxo do por vir.

Quantas mentes já não colapsaram por tentar controlar o incontrolável? As variáveis são tantas, tudo está em constante desarranjo e o homem demanda controle. Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir uma coisa da outra. É uma oração, o que é compreensível, pois para se conquistar o que se pretende, apenas clamando aos céus. Os céus não respondem nada. O telefone não toca. Tudo o que há é o medo e a apreensão.

Trava-se um jogo com a própria consciência: tudo o que é possível para se convencer de que o que é não é realmente. O que é, por sua vez, em sendo não faz concessões. Eis o que não pode ser mudado e não há sabedoria no mundo que torne esse fardo mais leve para os ombros de quem recebe a notícia.

O telefone toca e a realidade espera do outro lado da linha.