Miscommunication
IV
Poor little child, she’s dreaming. Estas eram as únicas palavras que Josephine lembrava de sua infância na velha Inglaterra.sEla era sonhadora. Seus pais pensavam até que delirava beirando a loucura. a lua vivia em seu coração. com o tempo não desaprendeu a sonhar, mas a guardar seus sonhos dentro da caixinha torácica que compunha sua estrutura. abrir. jamais. feito bailaria em caixa de música antiga ela se fechava e mal abria enferrujada quando alguém forçava. era assim que Josephine passava noites e mais noites sonhando com o grande dia em que sua vida triunfar-se-ia. ele bateria à porta e falaria com seu pai. ela, curiosa, espreitaria detrás da porta, wondering sobre as afáveis palavras ditas por aquele pobre rapaz trêmulo e magricela. ligeiramente nervoso pela grandeza da ocasião. os contornos não eram bem definidos. sabia-se ser um jovem altivo. mas sem formas concretas. o rosto, a despeito do esforço da menina, era um conjunto de borrões e manchas irreconhecíveis. em esperar ela se aperfeiçoou. e todas as noites antes do amém clamava pelo noivo, pela família. por tudo aquilo que ainda haveria de ser. mas a vida tem mesmo a graça de triturar alguns sonhos. e o tão ansiado, talvez temido, dia chegou sem que ela quisesse que tivesse chegado. Às pressas, Josephine teve que aprender a mulherice e manter a dignidade no rosto. o doce encanto da criança deu lado a um amargor conveniente e típico da vida adulta. como quem fora prostituída pela realidade antes dos tempos. seu noivo não era feio. mas por ele ela não nutria nenhum sentimento, talvez piedade. era só mais um rapaz comum, ordinariamente comum, que não cheirava a nada além de trabalho laboral pesado, à comida na mesa e à casa por arrumar. Josephine adiou o casamento o quanto pode. cada dia era uma desculpa diferente. ainda não estava preparada para aquele primeiro encontro não desejado. mas a cada dia em que procrastinava suas funções de esposa, os membros daquele navio faziam questão de a lembrar de suas obrigações, com olhares e comentários perniciosos. e foi numa noite tranquila, em que o vento estava favorável para os marinheiros e não para as mulheres, que Josephine teve seu corpo colonizado pelo marido. regozijado pelo conforto do calor daquele outro corpo, mortificado pela experiência. os segundos pareciam demorar milênios. e o peso daquele pedaço humano corpulento em cima de seu corpo pareceu insuportável. até que seus olhos se conformaram, procuraram uma estação fixa e se focaram nas lembranças, aquele momento soou com um gemido surdo. o tão ansiado e temido matrimônio. parecia agora mercúrio penetrando-se em suas entranhas. Sem emoção. ele virou-se para o lado, ofegante, como que com medo, de uma resposta estampada na expressão petrificada da moça, embora sem nenhuma pergunta. não tinha sido bom. aqueles minutos de agonia se repetiriam por noites e noites. sem o agravante da novidade. sem a aspereza do susto do início. a conformidade vai se assentando e se moldando feito massa de pão à forma. Impiedade. era o que se poderia adjetivar. impiedade da vida foi ter feito nascer mulher. invadida em sua essência. machucada em seu ventre para perpetuação da espécie. rasga o corpo de quem nunca se pertenceu senão para servir a outros corpos. Mas Josephine não teve filhos.

