Miscommunication

V

I see you in Boston. Essas eram as palavras que secretamente Josephine guardava em seu coração na esperança de que seu silêncio o alcançasse. Nesses portos de chegadas e partidas ela conheceu Josh que nada tinha de elegante, mas que, aos olhos dela, compunha uma harmonização perfeita entre charme e hombridade. sua face ligeiramente torta e quadrada, somada ao seu copo obtuso e corpulento tornavam aquela imagem um ponto de segurança em meio ao desequilíbrio do oceano onde ela em seu leito antes de dormir sonhava em se abrigar. mas ele estava longe. nem que tivesse perto. havia um compromisso do qual não podia se desvencilhar. sofria, então, por se imaginar feliz. ao seu lado. como se fosse um privilégio inalcançável e doloroso amar e ser amada. sua sede por translúcidos momentos de ternura terminavam em delírio e febre ensandecida. esquecida pelas obrigações quotidianas, pela casa, pela doença contraída. quer dizer, pelo matrimônio contraído, contraído mesmo. feito doença.

Josephine acabara se instalando em uma colônia mais ao norte. onde no frio as casas cantavam um réquiem para a vida. era na primavera que as coisas mudavam de tom e a alegria ameaçava se esburacar em alguma parede. as pessoas saiam de suas casas e se preparavam com entusiasmo para o verão. aquele verão seria diferente. pela primeira vez em sua colônia a maior feira itinerante de produtos ira se instalar durante os contados dias de sol. Josephine mal podia esperar para o grande evento. Não só pela possibilidade de adquirir coisas novas. os negócios da família iam muito bem no novo mundo e haviam conquistado certo prestígio sobretudo quando os degredados começaram a chegar e junto a eles a necessidade de se construir prisões. a manufatura da família de Josephine não só lucrou com isso como garantiu em definitivo seu espaço em posição de destaque na colônia. ela vivia com muito conforto. mas os vestidos e lençóis importados não preenchiam no abraço aquele desejo ardente de sentir na pele a leveza do toque embalada pela respiração ofegante do amado que aos seus olhos sussurrava as mais afáveis palavras de amor. Alguns anos haviam se passado desde que conhecera Josh. depois que se firmaram em solo não tivera mais notícias dele. sabia que mexia com alquimia. pelos seus cálculos grande era a possibilidade de estar na feira. só a imaginação de encontrar seu amado a fazia tremer. maquinalmente, planejou e repassou milhões de vezes todos os detalhes daquele que seria o encontro perfeito. Será que ele estaria vivo? será que ele a reconheceria? talvez tivesse filhos. talvez já tivesse uma esposa. Cuidando para não demonstrar um interesse que não soa de bom tom para uma jovem senhora casada, Josephine montou sua esperança dia após dia até que enfim o verão chegou. num misto de ansiedade, medo e desejo, sentou-se em frente a sua penteadeira e escovou seus longos cabelos lisos, dando início ao ritual que consagraria sua beleza, que a faria ser notada em meio à multidão. Todas as damas da colônia se ataviaram naquele dia. O clima era de festa. o burburinho dos comerciantes conseguia se fazer ouvir em todos os cantos. nunca se vira tanta gente reunida em um só lugar desde o julgamento público de uma adúltera que se recusou a entregar o bebe às irmãs da caridade, morrendo com ele à tira colo. Josephine, tentando não demonstrar inquietação em demasia, buscou entreter-se com os objetos oferecidos nas tendas, comprando alguns chapéus elegantes e alguns véus novos para si. até que seus olhos cruzaram o inevitável e ao longe avistou aquilo que mais parecia uma miragem. Josh se vestia com uma calça de tecido preto, bem alinhada ao seu copo, fazendo-o parecer mais robusto, mais bonito. sua camisa azul contrastava com o tom sóbrio da calça de linho preta e o fato de não estar em trajes completos o dotavam de um ar de irreverência típico daqueles que nasceram com leveza e atitude cravadas no estilo. Ela se projetou por entre as senhoras e discretamente o alcançou. quanto custa esse combinado para os pulmões? Perdão, senhora, mas não nos conhecemos de algum lugar? Oh! Pensei que o senhor não se recordaria de mim. we small talk at a crowded place three summers back, pensei que você nunca fosse se lembrar. Não sou do tipo gentleman, mas é muito difícil se esquecer de uma senhora tão elegante nos traços como você. aquelas palavras foram o gatilho para a imaginação de Josephine conjeturar inúmeras interpretações. e se todo este tempo ele a tivesse procurado também? e se ela estivesse rodando na mente dele como ele estava na dela. bom, se ele se lembrava daquela meia dúzia de palavras trocadas em um lugar lotado e ruidoso, talvez suas teorias não fossem assim tão mirabolantes. Pela primeira vez as paixões de Josephine ganhavam uma coloração sólida. Eu pensei que você morasse na região de Boston, ele disse. Mas como não tive mais notícias suas presumi que se havia instalado por outras bandas. Incendiada com cada palavra que saia daqueles lábios desejados, Josephine tratou de colher as informações que eram necessárias para os próximos atos de sua epopeia. Logo soube que no próximo verão os céus se descortinariam em Boston e a maior feira de todos os tempos aconteceria lá. I see you in Boston. foram essas as palavras da despedida, mesmo sabendo que, provavelmente, essas palavras não passavam mais de mindless dreaming.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.