Miscommunication

Então é isso. Nós crescemos. Ninguém mais tem dó e nos dá doces quando fazemos aquela carinha. Dói até o osso mais profundo da sua existência. Aliás, você descobre partes peculiares do seu corpo e da sua alma que você jamais se imaginou capaz de machucar. as pessoas acordam, levantam e escovam seus dentes. saem pelas ruas à procura de vencer mais um dia. trabalha, almoça, descansa. acorda, trabalha, dorme, enrola, acorda. ri de uns vídeos. ignora bom-dias no grupo da família, ignora a família também. e o coração vai sendo esmagado pelo rolo compressor da vida. quando você vê já é tarde demais. seu coração já se desfez feito chiclete amassado em rodovia por caminhão de cana. e aqui estou eu. novamente. me propondo a escrever com o coração apertado. quanto custa para elevar a mente? quanto custa para sentir o refinamento de espírito? você vai se acostumando com a rigidez umedecida da tardes secas. Escrever parece um exercício difícil. pra você que nunca teve nenhum talento senão se doar para o papel. senão entregar sua alma para amar a vida por meio de palavras. os passarinhos se esconderam de mim nessa temporada. se os vejo, são cinzentos e tristes. voando exclusivamente para me relembrar dos tempos da aurora em que eles vinham azuis alegrar minha existência. os esquilos fogem da minha presença, até mesmo o sol se escondeu. começaram a me pintar da tinta de que é feito o cotidiano. as pessoas trabalhando. esquemarias, castelos de cartas, falações. e você parado, se perguntando como chegou ali. como se deixou chegar ali. Use a sua criatividade para ajudar o mundo. eles dizem. mas eu só consigo escrever sobre aquilo que sinto. o que vejo. o que respiro. e minha literatura insana, descompassada, desconectada reflete o que sou. ansiosa. sem rodeios. realidade dói. crescendo aprendi que até pra mim. Passando por cima da ponte, na confluência de dois estados da velha Nova Inglaterra, deparo-me com a água cinzenta, reflexo da realidade, espectro de desencanto, fez sobressair ao verde da paisagem, a usina que se encontra ao fundo. você ouve tanta coisa, vê cada absurdo absurdamente comum, que seu coração começa a se tornar uma grande mesa de escritório bagunçada, cheia de coisas por fazer e um chefe chato na orelha. cobrando. cobrando. cobrando. tudo que você desejou um dia não veio. e você tem que aprender a lidar com o que a vida te deu. ou melhor, como o que você fez das circunstâncias que lhe foram impostas pelo acaso. crescendo você aprende que casa não é sinônimo de sofás e cadeiras confortáveis. casa é que ter onde sentar. onde poder se relaxar das existências alheias, pendurando a alma nos móveis, e derramando-se de maneira corpórea nos objetos. alguns lugares estão bem longe de ser uma aquilo que chamamos de casa. você não quis crescer. é, eu sei. Me sinto na obrigação de fazer apenas uma coisa daqui em diante: manter-se vivo até morrer. morrer é curioso. e que tristeza. não poder se transformar em adubo do seu próprio solo. ser enterrado em terras estrangeiras. misturar-se ao seio do lugar que não te plantou. uma tristeza que me tomou de assalto enquanto caminho pela rua dos cemitérios aqui no gringo. tudo é tão easy, you know? até morrer parece fácil por essas bandas. os cemitérios a véu aberto, escancaram-se no meio da rua feito moradia daqueles que não foram. só falta caixinha de correio. queria falar das flores, do mar, das ligeiras sensações que me acometem quando estou em terras tão longínquas. Mas eu estaria mentindo. Me apraz contar sobre as lápides. Que redondas me entristecem o olhar. e me refletem a vida. Esses dias…

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