MOÇA, NÃO CAIA NESSA

Mais uma alma errante a vagar pela dimensão solitária das existências. A procura de carinho, a procura daquilo que venderam pra ela como sendo “amor”. E esse tal “amor” é tão rebaixado que surgem cobranças. E ao invés de ser ensinado o doce sabor da liberdade, cotidianamente, somos relembradas do nosso fracasso em alcançar o que a sociedade nos impõe. Porque felicidade tornou-se sinônimo de viver às sombras de outra pessoa. E qual é o risco disso? O risco disso é que acontece o que narraremos por aqui. Paixões sempre acontecem. Mas um dia chega uma que você nunca — jamais — espera na sua vida. Ele vem com um papo de quem não quer nada. Vocês vão se descobrindo e no fim das contas, já o são. Precisa dizer mais que isso? E até ai já foram muitas músicas, muitas risadas tímidas, muitos segredos fortuitos compartilhados, muito sentimento criado. Laços que vão se amarrando delicadamente e induzem o começo de um relacionamento bom. Vocês tem tudo em comum. E por que não evoluir? Só que o convite pro cinema nunca vem. A evolução é barrada por um simples e pequeno fato: ele namora. Isso, isso mesmo! Você caiu na armadilha e nem seu conta. Você! Você que xingou fulana, hoje compreende os motivos dela, sobretudo enxerga que ela tampouco é a maior culpada nessa história toda.

Que Jane Austen me perdoe, mas acho que deveria ser uma verdade universal que as relações de longa data só o são porque atingiram um nível de estabilidade muito grande, independentemente do que as sustente e que não é uma paixão que irá abalar toda essa estrutura tão bem sedimentada pelo arquétipo social. E é por essa razão que existem esposas e pelo mesmo motivo que existem amantes. Umas mais céticas, outras ainda crendo no dia em que virarão a principal. Sabe aquela moça, Clarice Lispector? Então! Ela disse uma vez que até cortar os próprios defeitos poderia ser perigoso porque nunca sabíamos qual deles sustentava o nosso edifício inteiro…pois é! É assim que é a vida. Vivemos com medo de tudo ruir. Nossas crenças, nossa fé, nossa vida, o mundinho que criamos. Mas um dia o novo chega colocando em cheque tudo isso. A insegurança toma conta, é claro. E na conta final a balança pesa para o lado da estabilidade. E nos números coloca-se o passado num pedestal. No entanto, existem pessoas que optam pelo novo, não posso negar. Mas não para que se tornem o velho, mas sim como um túnel, um canal que pode conectar-lhes à liberdade do mundo lá fora. Viver não é uma tarefa fácil, a vida não foi feita para os covardes. Paixões, amores acontecem toda hora. Difícil é encontrar o perfeito equilíbrio. Difícil é o encontro perfeito. Difícil é achar páginas em branco. Todos temos nossos rabiscos. E a constatação é: moça, ele não vai deixá-la para ficar com você. Aceita que dói menos. Você é só uma alma solitária e errante, parecida com a dele. E a culpa não é de ninguém por esse desencontro ter acontecido. Mas tenho uma convicção forte e profunda: você é mais, você merece mais. Vivaldi poderia escrever uma peça inteira com o brilho dos seus olhos. Pintores russos poderiam pintar as muralhas da China com a expressão de seu rosto. Não se deixe enganar. Não se deixe rebaixar, porque nada nem ninguém pode ofuscar o brilho de nossa jornada. E quem sabe um dia? Alguém tenha merecimento de estar ao seu lado, para junto de ti alcançar o céu em que ainda não inventaram a noite. Enquanto isso, aproveite sua própria companhia e não acredite na ideia de fracasso imposta pela sociedade se você não tem ninguém. Você tem! E muito. Pra ser feliz não basta muito. Só basta estar bem. Tirando a dor de existir. Mas nada que não dê pra suportar. A boa notícia é que somos livres. Livres para acertar e errar, e, se possível, livres para recomeçar.