"Moça, vem pegar o acesso grátis"

As pessoas passam me fazendo lembrar uma música francesa: les passants, a qual inclusive toca na minha rádio interior nesse exato momento. Essa rádio é curiosa, porque me entra em sintonia quando quer, toca o que quer, sem me perguntar as preferências para o dia, sem me perguntar se é uma boa hora para músicas. há vezes em que só desejamos habitar o silêncio e do nada vem: poxa, crush, por que não me nota (no ritmo — duvido que você não leu cantando se tem seus vinte poucos pra baixo e vive nesse planeta chamado internet). daí ironicamente você pensa: essa rádio só pode estar de palhaçada comigo. com certeza deve ser alguma invenção da CIA pra penetrar nossa mente e nos perturbar o trabalho. Enquanto escrevo, mantenho um olho na tela e outro nos passantes, no firme propósito de encontrar os meus autores favoritos por um acaso do destino. Em minha frente, um guichê com uns 7 funcionários me comprova a teoria de que quanto mais ruim o marketing mais ele funciona. “Moça, vem ganhar acesso grátis”. Você é induzido a pensar que é o wi-fi grátis e cai feito inseto na teia da aranha e é obrigado, por educação ou constrangimento, tanto faz, a ouvir 10 minutos uma pessoa disfarçar a tristeza de seu ofício, tentando te convencer que revistas inúteis, cuja circulação já não deveria mais nem existir, valem a pena ser lidas, sobretudo porque, assinando, você ganha uma linda malinha de mão que gira 360º graus e tem um ano de garantia. Você dá um sorriso tímido para o vendedor como que dizendo: “desculpa, eu te entendo. sei você só faz isso pra sobrevier”. Caminhando mais para frente se encontram as lojinhas do “duty free”, com os seguintes dizeres, em letras garrafais, estampados: “seja um cliente X e veja a gama de possibilidades esperando por uma pessoa tão especial como você”. Só esqueceram de mensurar que essa adjetivação está longe de ser qualitativa, relaciona-se diretamente proporcional aos dólares que você traz na carteira. Acabo de descobrir que meus esforços em encontrar o Mia Couto de surpresa são em vão. Nessa noite ele estará em Salvador palestrando. Sortudas são aquelas retinas que nele podem laçar um olhar mais apurado. Pelo menos posso me descansar do ofício de vigiar, então. Andando por entre os passantes percebe-se nitidamente os tipos de pessoas. não que eu estou querendo lançar sobre elas algum juízo de valor. mas dá pra perceber quem não se importa, quem vive no mundo da lua, quem te mede de cima em baixo, quem te encara como um potencial inimigo, quem tem amabilidade no olhar. E, claro. os homens babacas que passam secando como se você estivesse desfilando pelada. Um homem me olhou de uma forma tão descarada e tão nojenta que até fui me conferir para me certificar que realmente eu não estava sem roupas. mas só encontrei um casaco bem grosso, botas de cano longo e uma meia preta nada atraente, nada chamativa. e nem que eu estivesse de fio dental. quem ele pensa que é pra me olhar desse jeito. passando por entre as mesas de um restaurante, o garçom se achou no direito de miar pra mim. respirei normal, como se aquela infeliz existência não tivesse cruzado meu caminho e sequer o ar deslocado pelo seu corpo tivesse me incomodado. “Senhor, vem pegar aqui, ó, acesso de graça” — eles ainda insistem — “senhora é só pegar”. Caminho pensando que nessas horas se eu andasse armada seria um problema, porque vai que me dá uma vontade de mostrar pra aquele maluco como a gatinha mia? daí já era a minha vida. creio que ponderar as consequências de alguns atos é um ponto que venho exercitando no decorrer dos anos. não digo que é um caminho fácil, natural. não pra mim. “Moça, é embarque da Latam ou da Gol? Pode pegar um acesso grátis aqui.” Ainda bem que estou pacificada. mas minhas emoções ainda se inflamam tal qual uma capivara selvagem, contudo

seguimos…

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