O Dia em que o Nove Ficou Famoso

- Seguinte, amigo: ou assume ou morre.

A sentença que ouvira tinha sido pior que a do juiz de verdade. Esta, pelo menos, o havia condenado a meros três anos de prisão. Agora, já não sabia o que fazer.

- Tu já sabe de tudo, agora tá dentro, parceiro. Se tentar pular fora, já era.

Tiago chegara ao presídio há um mês, mas já havia feito amigos. Foi logo conhecendo alguns que haviam jogado futebol com seus primos nos campeonatos da vizinhança. Tendo começado a ser aceito no grupo, chegou a “proposta” horrorizante numa manhã, logo depois de acordar e sair da cela.

- Seguinte: o Alex mandou dar um jeito no Dinho por causa daquele ocorrido semana passada. Tu tá recebendo a oportunidade aqui de ser o laranja e saldar tua dívida.

Era o que Tiago mais temia. O laranja era aquele pobre desgraçado que assumia a culpa dum crime de outro. Ia para o isolamento, passava semanas terríveis no silêncio, no escuro e no tédio. Aliás, tédio é um eufemismo — aquilo é a receita perfeita para cozinhar a loucura em alguém.

Mas isso era até passageiro. O pior de tudo era bem mais durável: mais um delito na ficha, que o condenaria a praticamente mofar na prisão como um morador permanente.

O que fazer? Precisava se livrar da dívida de crack que já fizera naquele pouco tempo. E não havia muitas opções de como fazer isso — as poucas alternativas comuns estavam fora de questão.

Ele já fazia planos para se ajeitar quando saísse. Mas e agora? Tinha que escolher entre assumir a culpa alheia e morrer a mando de um traficante por acerto de contas.

Queria gritar, fugir pra longe; até mesmo chorar. Queria acordar e descobrir que não era verdade. Para piorar, já sabendo do seu destino, passava as tardes no crack, naquele êxtase sem esperança.

Chegou o dia.

- Fica tranquilo, moleque. Aqui vai ser limpeza.

Magão, com seu consolo amigável, era o que, de fato, ia matar o coitado do Dinho. Tiago não sabia quase nada sobre a vítima; apenas que o chamavam por esse nome e que, segundo um dos guardas, havia ficado com a mulher de um dos companheiros lá de dentro. Sabia lá se era verdade; só tinha juízo para saber que, com mulher de malandro, ninguém mexe.

Era hoje.

As mãos, suadas e geladas. Nunca o seu corpo havia clamado tão forte, tão inteiro, em uníssono, por alívio.

“E se eu avisar aos guardas? Não adianta; sei lá se são corruptos. E se eu agredir um deles? Pelo menos sou transferido. Não. Eles me matariam antes de sair daqui.”

“Meu Deus, por favor, me ajude.”

Ao fundo de seus pensamentos, bem ao fundo, uma gritaria cada vez maior.

- Tiago! — A fala de um colega de cela o arrancou do pensamento.

- O que foi?

-Parece que teve uma confusão no 2º andar. Mas foi outra coisa. Rápido, pega tua faca e fica alerta, que quando a casa vira, não tem lei. Nego aproveita e mata qualquer um.

Quando olhou para fora da cela, o caos já reinava: o tumulto já se espalhava por vários andares do pavilhão. Era faca e grito para todo lado. “Acabei de chegar aqui, e já tou numa rebelião?”

Sem entender, mas profundamente aliviado por ter ganhado tempo, Tiago pegou uma pequena faca artesanal que havia comprado ali mesmo e começou a subir as escadas até onde estavam seus companheiros, justamente onde havia a confusão. Olhando para baixo, viu quando Magão avançava, no térreo, cabisbaixo, junto de outros quatro companheiros. O alvo, Dinho, estava perto do portão de entrada. Era agora. Os guardas daquele pavilhão, o Nove, já haviam sumido.

Tiago olhava tudo do parapeito do 2º andar. Não queria ver a coisa acontecer. Tentou desviar os olhos.

Não conseguiu.

Quanto mais dizia para si mesmo “olhe para longe”, mais seu olhar se vidrava em Dinho, que observava o grupo se aproximando, visivelmente já sacando o que ia acontecer.

E, então, aconteceu.

Coturnos pretos surgiram atrás de Dinho e avançaram trovejando. Virando para trás e vendo aquele bloco que vinha gritando com escudos e armas, disparou e sumiu numa cela num segundo.

As grades de fora se abriram violentamente. Aos gritos de “Corre! Invadiram!” e “Entra na cela!”, Tiago via a cena em câmera lenta.

Magão foi o primeiro a cair. Gritando com um facão em riste em direção à explosão cinza que se derramava no pavilhão, foi metralhado, deixando a primeira poça vermelha no chão.

Tiago correu, quase congelando, sem pensar, fora de si, como se aquilo não fosse real.

Se jogou dentro de uma cela. Seus companheiros, agachados, se entreolhavam; os olhos aterrorizados.

Passos trotando, pesados e surdos. Tiros ensurdecedores em sequência. Gritos de agonia invadindo todo o pavilhão.

Os passos logo chegaram à cela onde estava, com um baque violento na porta. Bala, fumaça e barulho encheram a cela até o levarem ao desmaio de tanta agonia.

A partir desse ponto, ele não lembra mais de nada.

Sua vida não foi mais a mesma. Aliás, muitas vidas não foram mais as mesmas.

Maldito o dia em que foi mandado para a Casa de Detenção de São Paulo, ou “o Carandiru”, como era mais conhecida. Era 2 de Outubro de 1992.