OS EQUILIBRISTAS
Claro que se eu pudesse eu voltaria no tempo, ele disse com os olhos mirando o retrovisor aguardando a oportunidade ideal para mudar de faixa e ultrapassar o caminhão de madeira enquanto a seta esquerda piscava na sua intermitência.
E para quando você voltaria, ela perguntou com os olhos fixos nele de modo a observar seus dentes mordendo o lábio inferior como sinal de concentração que ele emitia na menor das ações.
Voltaria para dez minutos atrás e aceleraria para evitar esse caminhão, ele respondeu ainda com os olhos no retrovisor e ainda aguardando o espaço na faixa da esquerda.
Falo sério, ela disse, colocando a mão sobre o joelho direito dele.
Eu também, ele respondeu.
O trânsito parecia um corpo só que começa e termina em si, a faixa da esquerda, composta por diversos carros velozes, parecia não ter espaço algum, movendo-se com a coesão dos apressados, enquanto a direita se enfileirava atrás do caminhão de madeira.
Pensando bem, eu não voltaria no tempo, ele disse.
Por quê, ela perguntou.
Ele se virou para ela com o semblante mais sério que possuía, e ela viu no lábio inferior a marca dos dentes. Não sei sobre qual piscada se sustenta tudo isso, ele disse, desligando a seta e colocando a mão direita por cima da mão dela.

