OS LIMITES QUE DIRECIONAM A LITERATURA

14–7–17, sp

Karl Ove Knausgård <revista piauí, 130 edição, disponível em http://piaui.folha.uol.com.br/materia/bloco-do-eu-sozinho/>

Lembro de um exercício que fizemos no 1º ano do Ensino Médio, no Fernando Prestes, com a professora Gabriela, de Literatura. O exercício consistia em escolher um objeto e descrevê-lo da forma mais exaustiva possível, na sua composição e na sua aplicabilidade. Eu escolhi um lápis, por nenhum motivo especial além de, sempre sendo um preguiçoso, imaginar que seria o objeto mais fácil de descrever entre os que eu tinha à mão. Mesmo assim, no processo escrevi um parágrafo de uma folha inteira. Recebi como nota um MB, a nota máxima.

Lembrei disso agora, oito anos depois, ao ler que o autor Karl Ove Knausgård, da série Minha Luta, estava trabalhando em um novo projeto: todos os dias, ele escolhe um objeto e discorre sobre ele. Mais ou menos como eu fiz com o lápis, mais na ideia do objeto como centro da análise, menos na comparação de mérito e gênio literário.

A professora Gabriela não estava pensando em Karl Ove Knausgård ao propôr esse exercício, nem Karl Ove Knausgård estava pensando no 1º EM 5 de 2009 da ETEC Fernando Prestes ao iniciar essa nova tarefa literária. A semelhança, porém, me fez pensar no ato de descrever.

Conforme fui descrevendo o lápis — um objeto cilíndrico, de ponta afunilada, revestido de madeira com grafite por dentro, utilizado para escrever, desenhar, anotar, rabiscar -, a cada nova característica eu puxava o fio da obrigação de mais e mais explicações, como uma mentira que vai puxando outras e outras e outras para se manter, num ciclo vicioso. Ao falar que o lápis é um cilindro, pressuponho que o leitor saiba o que é um cilindro; ao falar da madeira, do grafite, de escrever, também. Cada elemento só faz sentido se encontrar uma correspondência dentro do leitor. Ao não encontrar, é preciso aprofundar-se: cilindro é o topo da pirâmide, sustentada pelas formas geométricas, sustentada pela matemática, pelos planos, pelas dimensões, até perder-se no fim das profundezas, que é o próprio universo, onde tudo desemboca eventualmente.

A escrita é um ato de correspondência. A Literatura funciona quando a palavra toma forma, e essa forma pode ser reconhecida pelos olhos de quem lê, ouvida pelos seus ouvidas, sentida pelos seus narizes. Todo mundo sabe o que é um lápis, o que me deixa confortável para dizer:

João pegou o lápis no estojo, sem maiores dificuldades, a não ser sobre a cor, o tamanho, a marca. O limite é a compreensão. Mas e se o leitor nunca viu, nunca ouviu falar em um lápis, como o meu interlocutor imaginário no exercício da professora Gabriela? Parto, então, para a descrição. E se ele nunca ouviu falar nos elementos que cito? Vou mais fundo. Mais fundo. Mais fundo. E quão fundo podemos ir?

Digo que não muito. A Literatura tem o quase inútil poder de nos aprofundarmos em nós, atrás das respostas, das formas, das semelhanças. Sejamos corajosos: não sigamos nessa direção, não digamos demais. Indiquemos apenas o caminho, para que o leitor possa desembocar no universo de si.

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