PASSO ATRÁS

9–11–18, sp


Pegou nas mãos e aquilo era o quê, além de folhas grampeadas e tinta borrada por cima das letras das duas caligrafias diferentes? Cheiro de velho, de mofo, porque eram folhas antigas, de anos atrás, a tinta já ressecada, o papel marcado e o grampo com ferrugem. Era o quê? Não só papel e folha grampeada. A ideia foi dele de ir escrevendo uma embaixo da outra e somando mais papel na medida em que fosse necessário, prendendo com grampo, para terem uma linha do tempo e saberem o começo, o meio e o fim, apesar de toda a luta para que fosse só começo e meio e continuidade. Não foi, acabou e acabou nas mãos dele, o último destinatário e não remeteu de novo.

Sabe-se lá o que aconteceu em sua cabeça para abrir aquela gaveta e pegar os papéis de novo, sabe-se lá o que aconteceu para deixar aqueles papéis lá, o que aconteceu para não jogar fora, ou colocar fogo, com solenidade, ver as cinzas voando, dar adeus. Sabe-se bem o que aconteceu, era aquela esperança meio besta, um medo de abrir mão, deixar ir, e então fica se socorrendo no registro de tudo o que já foi. O que é agora é a esposa que dorme, porque é madrugada e ele está revirando a gaveta enquanto ela descansa e o filho também dorme no quarto ao lado, parou de chorar há pouco tempo, dorme noites inteiras tirando quando acontece de se mijar. Nas mãos era o poder ser.

Tremia as mãos de segurar os papéis, era um punhado grosso, escreviam bastante um para o outro, primeiro ela mais, depois ele, depois os dois, como um sincronismo, passaram a escrever a mesma quantidade. Tremia as mãos de olhar e ler, não queria ler, passava os olhos, pulava as frases, era medo, medo de se ver, olhar no espelho, espelho turvo do tempo, ver quem não era mais, não se reconhecer, isso dá um medo danado. Querer voltar, maior medo ainda. Ia passando os olhos e vendo as indagações e as respostas seguidas e crescia no seu peito alguma coisa que ele reconhecia bem. Lia sobre quando viram um filme juntos e quando ficaram em silêncio sentados um ao lado do outro esperando a comida chegar e quando um olhou para o outro estavam lá os olhos observando, sorridentes, o shhhh compartilhado, a paz de estar quieto. Nada nunca aconteceu, assim nos termos da conjugação, e ainda assim, o que, talvez, ou melhor, com certeza aumentou a significação das coisas, não se podia falar em nada ter acontecido.

Aconteceu. O sentimento ele reconhecia. Era como estar lá, de novo. Lado a lado. Ou escrevendo a carta de brincadeira, num tempo que não são necessárias cartas, tempos digitais, tudo chega num instante, e eles dois engajados nessa empreitada clássica como cavaleiros em uma cruzada sem Deus, nem nada, só uma brincadeira de um casal de faz de conta. O sentimento de estar lá de novo e o peito se contorceu, pensou que era saudade.

Digo que não era. É outra coisa. Não se sentia como se estivesse lá outra vez, era impossível. Impossível voltar quando se dá um passo adiante no tempo, não é como ir até a esquina e voltar para casa, a marcha contínua é irretardável, vai e vai e vai e isso de sentir como se estivesse lá de novo é um golpe tortuoso da memória. Está aqui, no agora, e olha para trás com esses olhos que tem agora, olhos viciados por tudo o que aconteceu entre então e o já, esses olhos viciados enganam, veem o papel e julgam enxergar o tempo passado mas é só a reprodução presente do que já passou.

Truquezinho feito ilusão de ótica operada nos meandros da lembrança.

Ela já há de ter mudado, não muito, as feições principais devem ter se mantido. Ele mudou alguma coisa. Por isso que ao ler esses papéis quer voltar, desmudar, retorno ao status quo ante. Que isso quer dizer? Não diria coisas como status quo ante naquela época, bem se vê pelo que está escrito em suas mãos, era tudo mais simples, direto, certeiro. Parecia até bom poeta e mentiu para ela quando perguntado se era em nome dela que ele falava quando escrevia suas poesias e ele disse não. Era nela que pensava, deveria ter dito sim. Mas também seria mentira, não era em nome dela. Era em nome da própria poética. Por isso não escreve mais. Perdeu as palavras simples, agregou o linguajar, nisso se soltou alguma peça que impulsionava a caneta sobre as linhas. O status quo ante é impossível, é só a reestruturação do passado sempre com novos fatores, não mais que mera atuação.

Via que ia chorar, sentia o choro subindo pela garganta e enfiou os papéis de volta na gaveta. Pensou em pegar de volta e jogar fora, mas desistiu. Deixou ali, crescendo. Frutificando. Alterando-se os fatos, porque é tudo memória. E memórias não são nunca idênticas porque envelhecem e se amoldam ao curso do tempo como toda e qualquer matéria viva. Começo, meio e fim.