Pra nunca esquecer

Da minha dificuldade de lembrar.
Todos os dias me olho — enigma
E desvendo partes desconhecidas
Não escolhidas
Mas em mim entranhadas
Seria um sacrilégio ignorá-las
Com assombro e deslumbramento
Pego a alma, a desmembro
E tenho medo
Tenho medo!
Chego perto do que não entendo
E me arrependo
Me arrependo!
Mas sua mão, sempre disposta
Sobre a mesa
De repente, roça
Na minha
Como é bom te ver aos sábados!
Como é bom não te ver aos domingos!
Quando, minuciosamente, mastigo
Os sentimentos todos
Todos os medos são tolos
Tolos são os medos todos!
Lembro da sua zombaria
Ao me despir no espelho
E tudo que invoco é rima
Quando vem o desespero
Espero que a gente consiga
Agradar menos
Que os olhos dos outros
Sejam olhos outros
E não olhos
De nós mesmos
Tolos são os medos todos
Tolos são todos os medos!

