Só mais uma noite de inverno

Alexandre Brandão
Sep 4, 2018 · 6 min read

Fazia frio naquela noite do final de Agosto. E chovia, dava para ouvir os pingos tocando a janela de madeira. Henrique estava sóbrio há algumas semanas e isso parecia uma merda agora. Sua cabeça doía e a tela do computador era um farol queimando seus olhos. Andou até a cozinha e abriu a porta do armário de bebidas. Estaria vazio, não fosse por uma barata morta. Fechou o armário e encarou o apartamento vazio, tudo pulsava como uma música do Pink Floyd em pleno inverno.

Agarrou um casaco preto de moletom e enfrentou um vento gelado quando abriu a porta e deu de cara com a rua encharcada e vazia do centro de Juiz de Fora. Caminhou sob as marquises, pouco se importando se o vento soprava a chuva em sua calça.

Parou num cruzamento e viu um Cruze preto cortando a chuva e gritando Time do Pink Floyd. Seus ouvidos arderam e o carro avançou pelo sinal vermelho sem medo de enfrentar a madrugada, espirrando água sobre uns mendigos que dormiam ao redor de uma fogueira fraca e improvisada com gravetos molhados dentro de um barril de metal fosco. Henrique viu três mendigos se levantarem e xingarem o filho da puta que jogou água neles. Mas um mendigo não se moveu e continuou deitado debaixo de seus trapos e folhas de jornal, como se estivesse morto. Talvez esteja mesmo, pensou Henrique, mas aquilo não é problema meu, não é problema meu.

Atravessou a rua e não demorou a achar uma dessas lojas de conveniência, atacando a calçada com suas luzes amarelas, chamada Bebi Fácil. Cruzou a porta automática sem dar atenção para a meia dúzia de bebuns que se calaram quando ele entrou e foi até o freezer. Não achou nada que prestasse ali e se virou para a prateleira de uísques, pegou um Jack Daniel empoeirado e foi até ao caixa, aonde três pessoas esperavam por um atendente.

Ele suspirou e no fundo de seus ouvidos uma música começou a tocar. Seus pensamentos viajaram para algum outro lugar. Um lugar feliz, em que as luzes coloridas piscavam…

Sobre um piso quadriculado e as pessoas dançavam e pulavam, fumavam e bebiam, gritavam e sorriam. Ele conversava com um amigo, sem dar muita atenção para a confusão de alegria ao seu redor, encarando um moleque feio vomitando num canto escuro. Henrique não se importava muito com o que seu amigo dizia, mas ele ouviu uma voz diferente, perto do seu ouvido, uma voz que importava. Importava pra caralho.

“Vem dançar!” Ela disse.

“Ah… agora não.” Ele disse, sorrindo.

“Vem logo, porra.”

“Agora não.”

“Vou arrumar outra pessoa pra dançar.”

“Vem beber comigo, depois a gente dança.”

“Nem fodendo, quero dançar agora.”

“Dança aí, então.”

“Quero dançar com você.”

Ela puxou seu braço e o arrastou pela pista. Henrique olhou para trás e seu amigo tomava um gole da cerveja e já puxava assuntou com uma loira bonita e gordinha.

“Já tô cansando de ter que te arrastar. É sempre assim.” A voz que importava para caralho fechou a cara e fez um biquinho.

“É que às vezes eu tenho que me fazer de difícil, sabe? Pra você não achar que me tem inteiro desse jeito.”

Os Smiths começaram a cantar sobre o pânico se alastrando pela Inglaterra.

“Mas eu sei isso de qualquer jeito.”

“Fazer o que, né?”

Ela puxou sua cabeça, enquanto os Smiths queriam enforcar a porra do DJ, e enfiou a língua em sua boca. A voz que importava para caralho sacodia o quadril junto ao seu.

A luz piscou e o sugou de seus pensamentos. As três pessoas à sua frente tinham ido embora, o último ainda caminhava com um passo meio arrastado. A meia dúzia de bebuns o observava de um canto, como se Henrique fosse um sujeito novo na vizinhança. Como se ele estivesse incomodando.

Andou até o balcão e a atendente loira, de dentes sujos, o observou com olhos metálicos, vazios e alheios. Deu duas notas de cem à menina e esperou ela contar o troco, uma poça se formava debaixo de seus pés e em algum lugar atrás de seus olhos. Ele ignorou a segunda. A loira estendeu a mão com o troco e ele não se deu ao trabalho de conferir, agarrou as notas e passou pelas portas automáticas.

Estava lá, mais uma vez, na noite fria e chuvosa. Os pingos tocando seu rosto. Abriu o uísque, tomou um gole pesado e a bebida esquentou seu estômago e a sobriedade dos meses anteriores escapava de sua mente. A música retornou e ele fechou os olhos, esperando encontrar a boate outra vez, mas não encontrou, viu apenas a escuridão de um quarto…

E seus corpos colados e a voz que importava para caralho arquejando e se contorcendo sobre seu corpo. Pele com pele, eles caminhavam lado a lado na estrada do que parecia ser amor, mas ele não pensava muito naquilo, porque era tudo muito bom e quando tudo é muito bom a gente simplesmente vai, sem parar para pensar no que está acontecendo.

Os dois gemeram juntos e ela deitou ao seu lado, apoiando a cabeça em seu ombro. O quarto vibrava e alguma droga caminhava em suas veias. Kurt Cobain cantava sobre uma caixa no formato de coração em algum lugar e Henrique estava feliz só de sentir o calor dela em corpo. O cheiro dela em seu corpo. O amor dela em seu corpo. Tudo dela em seu corpo.

“Te amo.” Disse a voz que importava para caralho.

“Eu também.” Ele disse. “Eu também te amo.”

O vento frio soprou seu rosto. Metade da garrafa já tinha ido embora e ele estava parado, com as costas apoiadas na porta de metal do seu prédio. Se arrastou escada acima, abriu a porta do apartamento e acendeu as luzes. Todas elas. Procurou por algum maço de cigarro e encontrou um Camel pela metade no fundo do armário.

Tomou outro gole do Jack e o mundo já dançava uma ciranda bastante animada. Colocou uma cadeira de frente para a janela e empurrou a madeira fria, a chuva entrou no quarto e molhou o carpete vermelho debaixo de seus pés descalços e sujos. Acendeu o cigarro e soprou a fumaça para fora. A música voltou. A escuridão também, mas agora ela era entrecortada…

Por luzes amarelas. Faróis de carros atravessando o asfalto como navalhas. Henrique segurava o volante com força, deixando seus dedos vermelhos, Pink Floyd cantava Time e ela o encarava com o pescoço tombado para o lado. Ele olhou para ela e sorriu.

“Que foi?” Ela disse.

Uma chuva fina tocava o para-brisa.

“Você tá linda.” Ele disse.

“E você… bem, você tá dirigindo.”

“Vai se foder.”

Ela riu.

Ele riu.

E o carro começou a fazer a curva para direita, enquanto Pink Floyd avisava para correr e correr para alcançar o sol, mas tudo estava afundando. E tudo afundou mesmo…

Quando a porra dos faróis do caminhão atravessaram a contramão e bateram de frente com seu carro. Não existiu grito, nem dor. O que veio foi a escuridão gelada de uma noite fria de Agosto. Uma escuridão sóbria e eterna, livre de sorrisos e músicas. Preenchida por pessoas de olhos vagos, procurando alguma coisa para beber e algum lugar quente para dormir. Mas esse lugar não existia. Nem a noite acabava. Nem a chuva parava.

Henrique encarava as calçadas molhadas e as poças de água no asfalto esburacado da Avenida Rio Branco daquele lugar. Procurava por um par de olhos conhecidos ou por uma voz que importava para caralho. Só que elas nunca apareciam. Quando a música vinha, algo se acendia em seu peito, só para apagar em seguida. Aí ele bebia e soprava a fumaça do cigarro vagabundo para o céu estéril e torcia para tudo aquilo acabar.

Mas é claro, nunca acabava.

Virou o resto do uísque, seu corpo tombou para o lado e a cadeira caiu. Henrique apagou.

Acordou tremendo de frio e observou a noite fria. Ainda chovia e um ônibus correu pela avenida. Ele se ajoelhou e olhou para o céu, aonde uma estrela solitária tentava brilhar no meio das nuvens. Henrique fechou os olhos e ouviu a música tocando outra vez. Umas lágrimas escorreram por seu rosto. Em algum lugar distante, ele ouviu a voz dela.

“Vem dançar!” Ela disse.

E uma brisa morna soprou seus cabelos.

AB — 02/09/2018

impublicável.

ficção e não-ficção sem explicação, sem censura, sem reparos, sem cortes. as regras, os ensinamentos, as listas de como ser um bom escritor ficaram de lado. aqui é um lugar para se escrever - e nada mais.

Alexandre Brandão

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Às vezes um cigarro é só uma fumaça e uma história é só uma história

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