TODO SENHOR LENDO JORNAL É MENINO LENDO GIBI
28–7–17, sesc 24 de maio

São várias cadeiras com formas engraçadas e cores diferentes. Vermelha amarela verde. Tem uma bancada circular, roxa, com pequenos banquinhos em formato de cubos e a base em triângulo, e sentado em um deles está um senhor de boné preto e camisa branca com um celular no bolso da camisa, e seus braços são peludos e seus pelos são brancos e no pulso esquerdo há um relógio de pulseira de couro preta e na mão uma aliança dourada, e essa mão segura uma revista ou um livro ou um jornal, que eu não consigo ver qual é, mas ele curva seu corpo sobre a bancada roxa e não é mais um senhor, e sim um garoto com seu gibi, imerso em si e nos traços de Maurício de Sousa, e seus braços e dedos são pequeninos como é a bancada, que tem pouco mais de um metro de altura, e o banquinho, que tem pouco mais de trinta centímetros. Atrás desse menino está a grande janela, que é uma tela urbana, e através do seu vidro vem a imagem de São Paulo: uma galeria suja e um prédio espelhado e janelas e cortinas e lá embaixo os homens e os carros, mas não há som algum aqui dentro, apenas os passos e as folhas virando ao toque dos dedos e a respiração entrando e saindo dos pulmões e as cadeiras com formas engraçadas ocupadas pelos corpos, que trazem vida ao objeto e função ao formato. Um pequeno ponto pacífico elevado do chão em meio ao caos do centro, e eu me sento aqui, com as pernas cruzadas, prestando atenção no silêncio, nesse senhor, e ouvindo atentamente as minhas palavras, que dizem: estamos finalmente a sós.

