
Vida úmida
Alguns lugares tem o poder de abrir nossa visão para lembranças do que vivemos ou imaginamos ter vivido. A memória tem o poder de misturar vivências e invenções.
Eu não sei se inventei esse rio ou se eu o vivi, mas lembrando dele, vejo um barqueiro descendo tranquilamente com o fluxo da correnteza, ali pela margem esquerda algumas crianças correm saltando as raízes robustas das árvores. São atletas olímpicas. O barulho de seus corpinhos felizes atingindo a superfície d’água é ouvido por aqueles rapazes que pescam mais a frente. Um teme perder os peixes que são afugentados pelo barulho, o outro se deixa contagiar pelo riso que só a água é capaz de nos dar.
Alguns turistas fretam um barco pra chegar ao Mar, vão descer bem naquele ponto em que todos os rios ficam azuis e salgados. Observar o rio chegando ao fim do seu curso natural é vê-lo desapegar-se do que é para virar algo maior.
As espécies que vivem dentro do abraço do rio com o Mar, confundem os habitats doce e salgado e algumas morrem diante de tantas possibilidades de existir.
As duas especialidades de águas não lutam, ficam naquela dança: maré alta o Mar entra no rio, maré baixa o rio se impõe. Como minha identidade é o Mar, a mim quem se impõe é a Lua. Quando o sal está abundante em minha pele, encontro na água doce o equilíbrio.
Uma criança, revisando meu texto, me perguntou a razão da palavra Mar está sempre escrita com letra maiúscula. Ela reuniu todo conhecimento gramatical que acumulou nesses poucos anos de vida e achou estranho eu não saber a regra ortográfica. Eu respondi que escrevo Mar com letra maiúscula porque é assim que se escreve o nome de Deus.

