#003 Sobre espaço e coexistência

Estava revendo um filme antíiiiigo, do tempo que o Val Kilmer era galã e que o Michael Douglas era somente um homem maduro. Se chama em português “A Sombra e a Escuridão”.

Assisti esse filme pela primeira vez despretensiosamente, em uma das muitas madrugadas em claro da minha vida e imagino que essa falta de expectativa foi o fator que me segurou na trama e, em algumas vezes, até me fez prender a respiração.

O argumento dele é simples, homens brancos europeus estão construindo uma ponte para passar um trem em um lugar na Africa, até que surgem leões que “demoniacamente” começam a matar os trabalhadores da obra. E agora, quem vai ganhar essa briga?

No começo desse ano, tive a oportunidade de fazer uma visita em uma reserva de leões. Algumas pessoas já morreram nessa reserva. Li uma notícia, pouco tempo depois que tinha feito a visita, que uma moça inglesa que era da produção do Game of Thrones morreu atacada por um leão. O guia também contou uma história de dois turistas que desceram do carro para tirar fotos mais de perto quando os leões estavam dormindo. O final desse caso é previsível e foi com esse gancho que ele usou para começar a falar sobre a personalidade do leões.

Os leões tinham sido alimentados no dia anterior da minha visita, parecia que passávamos por estátuas. Muitos estavam com os olhos fechados e uma pessoa, dentro da jaula motorizada que nos protegia, perguntou para o guia: “Você não consegue acordá-los?”. Ele, com um sorriso velado, comentou que eles estavam muito mais acordados do que pareciam.

O guia nos explicou que eles são animais noturnos, territorialistas e sanguinários. Quando um macho cresce, ele tem basicamente as seguintes opções: matar o pai e qualquer outro que o desafie bem como subjugar os outros machos, ser subjugado e fazer parte do bando, sair do bando e, por último, morrer nos casos em que ele não obtêm êxito em matar. Ele comentou que no parque, volta e meia, tinha um massacre. Perguntei como eles tratavam a situação e ele simplesmente me disse que eles separavam os animais, mas não me convenceu.

Conheço um cara que é biólogo e decidiu aprofundar o conhecimento em cobras. Ele me disse que existia um estigma muito grande de que a cobra é um animal “mau”, então muitas delas que sequer eram venenosas eram mortas, o que automaticamente desequilibrava o meio ambiente, considerando que ela é o predador de pequenos animais como roedores.

Outro dia, um colega de trabalho estava comentando que tinha visto um vídeo de um leão fazendo sexo com outro macho e, na visão dele, se o animal que era o Rei da Selva, símbolo da “masculinidade”, da “coragem” e outras características mais, apresentava aquele comportamento, por que não o ser humano? Sem entrar na discussão da conclusão sobre a cópula de animais do mesmo sexo, o que me chamou atenção nesse último discurso, bem como na motivação para matar cobras e também na forma como o filme hollywoodiano relata o ocorrido sobre os leões é a atribuição de características humanas aos animais.

Tanto quanto a cobra, o leão mata não porque ele seja “corajoso”. Ele não é temido pelos outros animais porque ele é “rei”. Ele tem uma função no equilíbrio da natureza de controlar a quantidade de animais. O instinto dele de matar vem da natureza e não da intenção de subjugar, quem faz isso é o ser humano. Os leões tem a natureza territorialista, se espalham e se “matam” para manter o equilíbrio na quantidade de predadores, não pode haver muitos numa mesma área. É o que diz uma espécie de “sociologia da biologia”.

No Lion Park, passando perto de outra família que estava mais acordada, pedimos para o guia chegar com o carro mais perto de uma leoa que estava se escondendo atras de uma árvore. Ele relatou um episódio em que, numa situação similar, a leoa pulou no capô do carro e imediatamente as pessoas começaram a se esconder debaixo do banco e ele disse que percebeu naquele momento que as pessoas entenderam que é preciso respeitar a Natureza.

Final de semana passado, assistindo novamente “A Sombra e a Escuridão”, adicionada à toda experiência do Lion Park, fiquei imaginando um roteiro em que os heróis não eram os homens e sim os leões. Leões não matam só para comer, nem são solitários como romantizava o filme, eles defendem o território também de outros predadores.

Em várias cenas, o filme confronta o olhar dos dois leões com o olhar dos dois personagens predadores, em ordem de importância incorporados pelo Val Kilmer e Michael Douglas. Prestei atenção que o formato do rosto do Val Kilmer parece com o de grandes felinos e o cabelo do Michael Douglas foi arrumado de uma forma que parece uma juba, vários elementos para mostrar uma mega luta do Rei da Selva versus o Conquistador do Mundo, também podemos dizer da Natureza versus o Homem.

O filme relata que os leões são bem maiores do que a média e a primeira pessoa que eles matam é o maior homem que estava trabalhando na obra. Nessa cena, num ato ousado, busquei me colocar no lugar dos leões e pensei: “vamos tirar o maior deles da jogada, é assim que funciona com a gente“, tentando fazer analogia da lógica humana de entender o comportamento dos animais como seria se fosse ele.

Quase como uma criança num ato burro e ingênuo, tentamos subjugar algo no qual fazemos parte e que é muito maior do que nós e, quando a história chega num momento que favorece nosso julgamento, encerramos o caso ali.

Em um dos livros do Saramago ele diz: “e quem irá contar a história do SE ?”

E se…

ao invés de ter atitudes imediatistas, fizéssemos jus ao nosso enorme Cortex Pré Frontal ?

Quero dizer, descobrimos tantas coisas, entendemos tantos sistemas extremamente complexos, identificamos tantas relações causais e insistimos em, por exemplo, usar agrotóxicos no cultivo de alimentos.

Li uma reportagem de uma horta orgânica que foi atacada por uma praga de larvas. Obviamente, eles não poderiam ir para a solução imediatista. Eles tinham como valor a não utilização dos agrotóxicos e vendiam esse valor.

O que fazer diante de um problema complexo?

Na minha opinião a primeira coisa é pensar sobre.

Fiquei impressionada com a solução que eles encontraram. Como diria DaVinci (não sei se procede a fonte): “a simplicidade é o estado da arte”.

Os agricultores colocaram ovos de galinha vazios suspensos por pedaços de cabo de vassoura em toda a horta na altura das plantas.

Aí você pode me perguntar: “Qual animal imbecil se sentiria espantado por uma bobagem dessa?” e a reportagem responderia por mim: “uma borboleta”.

A galinha é um predador de larvas. Não sei em qual nível de precisão uma borboleta consegue enxergar, maaaaaaas, na dúvida se tem ou não um predador ali, melhor colocar os bebês num lugar seguro.

Tcha naaaannnnnn, respeitamos o território um do outro e coexistimos…

Eu me contradigo

Sim, eu faço isso várias vezes. Digo que não vou fazer uma coisa e faço. Dessa vez, eu sugestionei uma conclusão.

Apesar de tantos questionamentos sobre tantas coisas eu consigo chegar a algumas conclusões que regem a minha vida e uma delas é a de coexistir. Sou extremamente territorialista, algumas vezes habito em uma bolha imensa, como uma vez uma pessoa me disse: “você é uma pedra de gelo com uma cerca elétrica ao redor”. Achei um tanto quanto exagerado, mas cada um sabe o sentimento que tem e eu respeito o que essa pessoa sentiu em relação à minha forma de existir. Acontece.

Uma vez tive a oportunidade de trabalhar com uma pessoa que começou a intencionalmente me prejudicar. Decidi usar meu cortex pré frontal e me colocar no lugar daquele ser humano, entender as motivações e porque essa pessoa achava que ía resolver o problema dela daquele jeito e tcha naaaammm… Sim, eu consegui a duras penas, mas eu consegui não só encontrar uma forma de coexistir, como chegar ao ponto de ter um bom relacionamento. Acredito que saí daquela situação muito mais feliz do que se tivesse tentado massacrá-la como foi o minha primeira ideia. Aquele sentimento de: “vou mostrar pra você com quem você tá se metendo”.

Agir rápido pode às vezes ser uma preguiça disfarçada, preguiça de queimar os neurônios.

É preciso fazer perguntas, ir além do óbvio e, depois de muito quebrar a cabeça com elas, ter a consciência que não existem respostas simples quando as perguntas são complexas.

Sabe o que é chato?

Quando você chega com conclusões parece que o diálogo acaba.

Acabou?

Me diz você!

Aguardo o seu eco.

Obrigada pela companhia!

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