Lidar com a incerteza que emerge no dia a dia das organizações é um desafio dos mais intensos dos nossos tempos.

Até alguns anos atrás era muito comum encontrarmos modelos de gestão de negócios que traziam aos líderes uma série de definições, certezas e passos bem marcados para implementar uma mudança organizacional. Chamando as pessoas envolvidas para um lugar de tarefas a cumprir e certezas a observar ao longo do caminho. Era muito comum também, e ainda é possível encontrar, modelos que digam que ao fazermos tudo conforme o planejado — como se isso fosse possível — , numa série de passos, o sucesso seria garantido e os resultados todos alcançados.

Na minha perspectiva, após treze anos trabalhando com pessoas em processos de mudança organizacionais, não consegui encontrar experiências bem-sucedidas e sustentáveis ao longo do tempo que tenham seguido fórmulas prontas ou que conseguissem realizar o planejado do início ao fim. Por outro lado, a impressão que tive em alguns cenários, é que as pessoas (lideranças e equipes) sentiam alívio ao término da implantação de um modelo novo, trazendo um clima e conversas de que logo tudo voltaria ao normal. Ufa!

Levando esse cenário em consideração, a proposta deste texto é explorar a incerteza como elemento facilitador de aprendizagem e desenvolvimento no ambiente organizacional:

Entender a necessidade do conhecido

Esse elemento se relaciona a buscar referências na nossa vivência ou de outras pessoas para lidar com o que acontece no presente e no futuro.

Utilizando como ilustração a metáfora de trilhar caminhos, talvez seja tranquilizador e cômodo pensar em seguir um caminho pavimentado previamente, medido e controlado em um plano claro de percurso. Isso cria uma ideia, um pensamento, de que podemos construir certezas olhando o mapa da jornada a ser realizada.

É comum e esperado buscar o que é conhecido. Mas o convite é entender qual o nível de certeza que é necessário para si, para sua equipe e para a organização e a partir disso aproveitar a incerteza suportável, em seu melhor nível, para movimentar possibilidades além da zona conhecida. Até quanto de incerteza é possível ter em seu dia a dia?

Disponibilidade real para estar no presente

Parafraseando um líder com o qual estive em um evento recente: “Mudança na minha vida sempre foi presente”. Essa frase diz muito e traz muitos significados, porque a mudança requer estar no aqui e agora, vivendo e experimentando aquilo que surge no momento, considerando o que emerge no contexto em que se está.

Lidando com a estranheza e o desconforto pelo desconhecido

Conectando as ideias, aplicando o conceito de certezas e definições planejadas a processos de mudança em ambientes organizacionais, notamos que essa visão mais tranquilizadora é divergente em essência da proposta de mudar. Fazer uma mudança, é em essência andar pelo desconhecido, por algum caminho que ainda será visto, algo a ser descoberto e que traz algum nível de desconforto exatamente por trazer elementos como: o novo, o estranho, o incerto e o desconhecido.

E talvez, lendo isso, você tente encontrar situações vivenciadas que tragam esses elementos (novo, estranho, incerto e desconhecido) e ainda assim geraram em você tranquilidade, segurança e comodidade.

Para a maioria das pessoas em ambientes organizacionais, situações de mudança e transformação reais trazem variados pensamentos, sensações e sentimentos. Isso é parte do processo e cada pessoa, grupo e organização desenvolve uma forma própria de lidar com a mudança ao longo do tempo, criando elementos culturais sobre esse tema.

Consciência sobre si e a realidade

Penso que lidar com a incerteza é uma necessidade e uma realidade nas empresas.

Nessa realidade organizacional, sistemas e culturas diferentes interagem: 1) empresa, 2) equipe e 3) pessoa, e neles residem temas culturais construídos na sua caminhada histórica, são os jeitos e padrões que percebemos quando temos contato com uma organização. O entendimento sobre a realidade e como é a cultura e interação desses sistemas (empresa, equipe e pessoa), traz clareza sobre o que é dos membros da organização e o que é da cultura organizacional. Esse olhar distanciado é possível quando existe autoconhecimento e auto percepção suficientes.

Tendo isso em vista, escolhemos (de forma consciente ou não consciente) olhar ou negar a realidade. Isso passa pela capacidade que cada sistema (empresa, equipe e pessoa) desenvolve para ampliar seu nível de consciência sobre o que está acontecendo, gerando entendimento sobre que aspectos estamos reproduzindo ou transformando na cultura organizacional.

Essa visão externa à cultura pode ser um desafio importante, mas que traz clareza sobre o que podemos ou não mudar num sistema, e essa clareza maior colabora de forma efetiva para nossa capacidade de lidar com a incerteza, tendo em vista que a organização é um sistema dinâmico e que as relações se movimentam. Trazendo uma perspectiva mais ampla e real sobre o que é possível controlar e mudar em ambientes organizacionais.

Saber que a incerteza existe e é benéfica para transformação saudável, apesar da estranheza inicial, colabora para gerar resultados diferentes e sustentáveis nas equipes e empresas.

Sobre a autora: Letiene Ferreira Linkedin/Site

Formação em Coaching e Mentoring pelo Institutho dy Crescere Personas e Seminário Avançado em Liderança e Cultura (Rosemary Napper/UK); Coaching de Times (Georgina Woudstra/UK). Coaching Executivo pela Academy of Executive Coaching, Pós-graduação em Liderança de Negócios e Pessoas (ESPM), Especialização em Educação Permanente em Saúde (UFRGS) e Graduação em Psicologia (PUCRS). Qualificação MBTI Integrado (Step I e II). De 2005 a 2018 atuou como especialista no Desenvolvimento de Pessoas em empresas como Vonpar, Alibem e Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Período em que liderou a elaboração e a realização de projetos estratégicos, como: Gestão por Competências e Desenvolvimento de Lideranças e Equipes. Desde 2017 atua como consultora e coach executiva na própria consultoria — Letiene Ferreira Consultoria & Coaching, realizando programas de Desenvolvimento Organizacional, Desenvolvimento de Lideranças, Gestão por Competências e Coaching Executivo. Atua também como palestrante, mentora e facilitadora. Professora de Programas de Educação Executiva na ESPM. Consultora parceira All About People, facilitadora do Conecta — Consultoria Relacional e facilitadora de formações em coaching pela Academy of Executive Coaching Brasil. Facilitadora parceira de programas de desenvolvimento organizacional no ICP.

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