(foto: Luiz Chavez / Prefeitura de Caxias do Sul / Banco de Imagens)

Por elas e para elas — Parte 2

O debate feminista em Caxias do Sul frente as tradições locais

Muito mais que em outras regiões do Estado, o debate feminista em Caxias do Sul vem ganhando mais força e voz a cada dia. Porém, ainda existem questões que incomodam a mulher caxiense e tabus a serem derrubados, principalmente os que envolvem as tradições religiosas católicas, um dos pilares da imigração italiana na cidade.

A legalização do aborto é um deles. Condenado pela Igreja um atentado contra a vida — já que a fé católica prega que a vida se inicia no momento da fecundação do óvulo pelo espermatozoide — é até hoje um desafio no diálogo de grupos feministas com a sociedade. Fabíola Papini, integrante da Marcha Mundial das Mulheres, defende a importância de incluir o aborto nas discussões sociais: “A pauta da legalização do aborto é um tema delicado, mas que precisa ser encarado. Ela encontra a resistência daqueles que insistem em desconsiderar o estado como laico. Muitos grupos religiosos e hipócritas se esforçam para negar a realidade de prejuízos físicos, psíquicos, sociais e mortes que atingem as mulheres, que, independente da legalidade, recorrem à uma interrupção de gravidez”.

Por outro lado, Karina Luiza dos Santos de Paula, integrante do coletivo “Juntas de Caxias do Sul”, sente uma ligeira melhora nesse quadro e um aumento do espaço para a discussão na cidade: “Percebemos que quando algumas pessoas que têm ressalvas quanto ao aborto abrem-se para o diálogo, muitas acabam entendendo nossos argumentos e até mudando de opinião. Tirando alguns com mais preceitos religiosos, que acabam prejudicando a discussão. Mas é um debate que tem cada vez mais espaço em Caxias”, afirmou.

Uma das tradições mais antigas da cidade, o concurso de escolha da Rainha da Festa da Uva, é apontado por grupos feministas como um dos símbolos do machismo predominante em Caxias do Sul. O concurso vem sofrendo críticas ao longo dos anos, principalmente pela falta de uma representatividade real da população caxiense. Como em 2011, quando o então vereador Renato Nunes, do PRB, protocolou um pedido explicações ao Executivo sobre a falta de candidatas negras no concurso.

Camila Tomazoni Marcarini, também da Marcha Mundial das Mulheres de Caxias do Sul, vê o concurso como uma prática machista, antiquada e que não reflete a própria cultura da cidade: “Essa continuidade de um concurso de beleza em Caxias que escolhe uma ‘rainha’ nos parece uma ação antiga, ultrapassada para nossos tempos e que reafirma um padrão de beleza, um padrão que inclusive pouco tem a ver com as mulheres italianas que aqui estiveram e trabalharam ”.

Ela também aponta para o cunho publicitário e opressor que a escolha possui:

“São padrões de beleza e comportamento que estão colocados. Mulheres brancas, magras, de cabelos longos e sempre pintadas como bonecas que representam que mulheres? Não as mulheres caxienses, mas apenas uma propaganda para o evento e que dialoga muito mais com o que os homens gostam de ver nas mulheres, com o que elas são de verdade ou gostariam de ter a liberdade de ser”.

Semelhante a 2011, das 20 candidatas que concorreram à coroa de Rainha da Festa da Uva em 2015, nenhuma delas era negra.

Continua…

Leia a Parte 3

Leia a Parte 1


Um agradecimento especial as protagonistas dessa luta, as mulheres de Caxias do Sul, aqui representadas por Fabíola Papini, Camila Tomazoni Marcarini , Raquel Duarte e Karina Luiza dos Santos de Paula.

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