Samuel L. Jackson como Major Marquis Warren

Resenha

Os Oito Odiados

Em seu oitavo filme, Quentin Tarantino apropria-se mais uma vez do cinema western e de fatos históricos para camuflar sua crítica social.

A familiaridade com a Guerra Civil Americana é quase requisito para compreensão das relações entre Os Oito Odiados. Período em que os Estados escravagistas do Sul declararam secessão sobre as imposições econômico-sociais do Norte para formarem uma Confederação Independente. Após sua derrota, foram forçados à aceitar todas as exigências nortenhas em rendição incondicional. Um ato amargo que até hoje repercute na estrutura política do país.

Com o fim da guerra e a expansão para o oeste, a profissão de caçador de recompensas tornou-se uma ótima oportunidade para ex-combatentes e bandoleiros criarem fortuna. John Ruth (Kurt Russel), conhecido como “O Carrasco”, segue com a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) na diligência de O.B Jackson (James Parks) para o distrito de “Red Rock”, onde a cativa será enforcada. A caravana cruza o destino de outros viajantes como o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um caçador de recompensas e ex-combatente do Norte; e do xerife Chris Mannix (Walton Goggins).

Com a ameaça de uma nevasca iminente, os viajantes são forçados a parar em uma estalagem administrada por Bob, o Mexicano (Demián Bichir); onde três outros hóspedes se encontram: Oswaldo Mobray (Tim Roth), “o pequeno”; General Sanford Smithers (Bruce Dern), um ex-combatente confederado; e Joe Gage (Michael Madsen), um misterioso vaqueiro.

Repetindo a estrutura narrativa de Cães de Aluguel (1992), Tarantino mistura o toque dramático do western indoor de Onde Começa o Inferno (1959) e Jogada Decisiva (1966) com as tradicionais aventuras de Sete Homens e um Destino (1960) e Os Doze Condenados (1967). Obrigando estranhos a trabalharem em conjunto por sobrevivência, com uma névoa de desconfiança pelo ar.

A grandiosidade do projeto é expressada logo nos créditos iniciais, com belíssimas paisagens de neve captadas com lentes de 70mm, um hábito abandonado pela indústria cinematográfica desde os anos 60; mas que definem muito bem a essência do diretor. Defensor da película e dos métodos de produção manuais, antes de ser um cineasta, Tarantino se define como cinéfilo, para ele o formato representa toda a magia que só as telas de cinema podem proporcionar.

Para captação de Os Oito Odiados foram utilizadas as mesmas lentes de Ben Hur (1959), resultando em um formato de imagem duas vezes maior que o dos filmes habituais. Infelizmente, desde 1993, as salas de cinema do Brasil não suportam tal formato e até nos Estados Unidos o circuito de exibição será escasso. Porém, mesmo em salas convencionais é possível notar a diferença na qualidade da imagem, tanto para planos em detalhe, quanto nas paisagens mais abertas.

Outro de seus hábitos é explorar a excentricidade de seus atores. Nesta montagem não ocorre diferente. Ao lado de velhos parceiros no elenco, somos presenteados com diversos diálogos verborrágicos, expressando a versatilidade dos atores em alternar momentos cômicos e dramáticos à violência do cineasta. Sua intenção em tirá-los da zona de conforto é clara, afinal, Kurt Russell nunca foi conhecido por ser um grande ator, mas ao lado de Jennifer Leigh e Samuel L. Jackson, prova o quão formidável um artista pode ser com a direção correta. Essa ótima interação também é explícita no timming para comédia de Tim Roth, James Parks, Walton Goggins e Demián Bichir. Demián, por exemplo, ganhou visibilidade com o drama Uma Vida Melhor (2011) e desde então foi marcado por papéis dramáticos, muito diferentes do estereotipado mexicano Bob. O mesmo ocorre com Walton Goggins, responsável por alguns dos momentos mais cômicos do filme.

Porventura o filme apresenta clima um pouco mais leve que outros títulos do diretor. Isolando o tradicional gore para o terceiro ato, é um filme em que a violência se propaga de maneira camuflada, através de diálogos e piadas. De forma sutil, apresenta um caricato reflexo dos principais problemas sociais do país, como o preconceito racial, divisão política e subvalorização do trabalho latino. Seu lançamento coincide com um dos momentos mais críticos para democracia americana, inclusive, Tarantino havia feito declarações pesadas sobre os temas abordados, chegou a declarar repulsa ao crescente discurso de ódio que alguns grupos políticos andam propagando nos Estados Unidos, resultando em ameaças e até boicote de público em algumas sessões.

Apesar da ambição, o diretor falha ao tentar produzir uma obra prima. Mesmo com a imponência fotográfica, a montagem peca em elementos importantes, como a ausência de uma trilha sonora marcante.O tema está muito abaixo do esperado quando se trata de uma obra de Enio Morricone. Outro tropeço é a escolha de Channing Tatum, nem com supervisão do Tarantino o pseudo-galã consegue expressar algum talento. Sua postura é descartável e genérica, diminuindo o efeito dramático que o papel exige.

O cuidado tomado por Tarantino em sua produção não faz jus às expectativas alcançadas, porém, ainda que menor, Os Oito Odiados não deixa de ser mais uma estrela para sua trajetória.

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