A capa

Uma voz alta, rouca, ainda feminina mas por pouco, apagava as palavras do livro. Meus olhos não caminhavam, se arrastavam tropeçando nos buracos entre as palavras e saltavam no ponto para o ponto anterior. Passo a ler a voz, sem olhar capa, título, orelhas, prefácio. Ela discursa sobre bebidas, drogas, bares, fornecedores, efeitos e indicações. Mas não era bula, era bruxa: dissertava combinações químicas com decepções narradas e esperanças rimadas… feitiços. Um forte sotaque das ruas pontuava e o álcool manchava a tinta das palavras, meus olhos corriam sem linhas. Pausa, virada de página e garrafa, acho, não olhava. Já na virada da página 3, sem nenhum esperado erro ortográfico ou gramatical e com um vocabulário que superava meu dicionário, me sentia incomodado. Apenas algumas frases erradas e palavrões, masculinos, interrompiam as vezes, mas eram prontamente apagados ou corrigidos. Mais algumas páginas e, com o suspense no auge, não resisti, olhei a capa do livro: imagem, título, fonte, cores, layout etc, nada me atraia. À primeira vista eu nunca pegaria esse livro numa livraria, biblioteca, internet… mas nem pra puxar a orelha e dar uma segunda espiada. E ainda entortaria o nariz pra crítico ou amigo que o indicasse. E foi assim que o pequeno grupo da capa me viu: um estranho com um livro aberto nas mãos olhando diretamente para eles com o nariz torto. A capa é virada, palavras masculinas abriram novo parágrafo e o grupo se afastou me encarando. Eu era descrito com palavrões, gírias e erros, muitos. E era eu que escrevia.