Até as consequências quase antepenúltimas

Sempre culpei todo mundo pelo mesmo desejo que sempre foi nosso. Queríamos colher o caju do outro lado do muro. Queríamos colher do pé.

Luciano era astuto e tinha treze anos quando fez dezessete, então batia no queixo de Eduardo com o canto vivo da mão fechada para fazer o amigo morder a língua. Somente aos quarenta entenderia o que é amizade.

Eduardo teve a ideia de que fôssemos lá porque a mãe dele estava com fome também e ela tinha um bebê crescendo na barriga. A gente achava que ela achava que a gente podia achar no pé de caju alguma criança viva para ela fingir que era dela caso o bebê que nela crescia viesse a falecer.

O mundo estava todo roxo, e ninguém tinha mais partos fáceis, e nós só ficávamos nos óculos virtuais vendo os jardins e os cômodos de casa que não tínhamos. Morávamos todos encaixotados, porque era conveniente e nos pagavam para sermos silenciosos menos do que se nós falássemos, mas se falássemos já tínhamos sido avisados que seríamos mortos. Então preferíamos comer coisas ruins, mas permanecer com os óculos ligados vivendo no mundo que não era nosso.

Quando pulamos o muro e Eduardo gritou:

- Mais pressa! Mais pressa! Ontem já é agora!

Ana Maria tossiu muitas vezes pela queda e ficou mordida com umas coisas por dentro. Ela tinha um piercing azul no lábio inferior e falava tudo de forma redundante, porque tinha motivos sólidos para não ser objetiva. Mas naquela queda, ela bateu com a cabeça, e os óculos caíram-lhe dos olhos. Aí ela observou a primeira mosca.

O Luciano sempre falou que ver primeiras coisas podia dar derrames, pois ele já tinha visto alguns amigos caírem tremendo e babando devido a uma revelação terráquea. O pior, ele dizia, era ser abduzido pela terra, a umidade podia umedecer por anos as cavidades do cérebro e fazer quem prestasse atenção chorar até o fim dos dias.

Ana Maria congelou. Daí deixamos ela bem lá, porque nos óculos ela tinha um olhar imbecil de quem está gozando de um dia prazeroso; e isso nos deu um pouco de nojo apesar de supormos que o que acontecia era o contrário.

A mosca na frente dela tinha tantos olhos nos mesmos dois olhos que, se Ana Maria ainda soubesse não utilizar calculadoras para contar os múltiplos de dois, perceberia que ainda sim seria muito difícil contar os olhos da mosca, porque eram vários e tinha a chance de não haver a mesma quantidade em ambos. Ana Maria reparou que a mosca semelhava o piercing que ela carregava na boca e foi a primeira pessoa a sorrir depois de uma coisa dessas. Ela já foi gradualmente desprendendo os braços da gravidade e teve vontade de achar outras sujeiras que lhe restituíssem uma ânsia primordial frente ao futuro e ao passado. Porém isso tudo fez ela ficar paralisada como a mosca parada e ela ter a ideia expressiva de que possivelmente já estaria morta. Tentou encontrar os óculos e achou algo parecido muito sujo e desconfiou que era verdade o fato dele ser o verdadeiro e usual.

Aí pegamos o fruto dos galhos, mas eles tinham asas e notamos que eram

moscas gordas com as barrigas cheias de larvas que entrariam em nossas bocas se não nos escondêssemos e fugíssemos enquanto houvesse tempo e não nos caíssem completamente dos rostos os já envelhecidos óculos.

Quando Ana Maria nos viu correr em direção a ela, sendo que o que queríamos era o muro atrás dela para saltarmos, ela teve um assombro incontrolável e caiu com os joelhos no chão pois percebeu nossas barrigas disformes. Disformes, disformes, amassados de tão inchados e feridos, porque tínhamos comido sem saber tamanhas larvas. Ela gritou para que jogássemos as coisas gordas de nossas mãos no lixo, mas nem todos entre nós tinham pegado moscas gordas e larvas — pensávamos.

Então quando demos as coisas para a mãe de Eduardo, notamos que nem aqueles frutos eram no mínimo cajus e que o filho dentro dela já estava morto. A Ana não estava mais perto de nós, porque também já estava quase morta. Quando eu acordei e a encontrei no outro lado do muro, ela já não estava lá, e eu só tinha era encontrado umas lembranças.

No dia seguinte, não comemos, e disseram aos nossos pais que seríamos multados porque não era permitido ver primeiro as coisas, principalmente as primeiras coisas.