Cada um pra Si
Sol acordeão, perde o fôlego e sufoca o mundo. Bilhões de led-lumes vagam aleatoriamente, suspiram na negritude e resgatam a visão. Vento flautim dobra a esquina, som gelado que silencia os olhos. Só de imagens na rua, Homem segue o som de pedra em pedra: não concreta, não vítrea, não metálica… abre os olhos imerso em pedra mas não acha. Mas não há dúvida, é pedra e é nota: si. Certeza assoprada em seu ouvido, que convida os olhos a escalar, andar por andar, as paredes das torres mais altas a sua volta e se atirar no breu. Si, uma pequena pedra atirada no nada brilha sozinha, bem acima da pedra à sua volta… uma quase imperceptível aura a cerca.
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Céu de vinil, antigo, empoeirado; poeira de luz: pedra cristalina de perto, estrelas ao longe. Linhas negras cruzam o vinil, varais, cheios de estrelas dependuradas. São tantas, infinitas, mas nenhuma a mais e cada uma com sua cor, seu lugar, seu momento, sua intensidade… notas. Os varais se prendem como cílios aos olhos agora fechados e a imaginação segue as linhas, enxergando uma sinfonia aos ouvidos: Falta algo — reclamam os ouvidos tropeçando num pregador vazio. As notas se apresentam: Lá, Mi, Dó, Fá, Ré, Sol… Si! Onde está Si?
As estrelas se aproximam e Si ressurge, apagada, refletindo o brilho a sua volta. Suas pontas se dobram para as estrelas à sua volta como espelhos. Curiosas com o próprio brilho refletido, as estrelas de aproximam ainda mais e Si volta a brilhar na forma de uma coroa. Ensimesmadas com seus próprios reflexos na coroa, as estrelas esquecem de Si e se intensificam numa disputa uníssona, brilhar já não basta é preciso ofuscar. Desaparecem as linhas, apaga o vinil; já não há mais cor, lugar, momento, intensidade… minto. Há tanto de tanto que transborda, sem piscadas de nada ou instantes de silêncio a imaginação emudece, a sinfonia cessa. A ostentação resiste até o impossível ao esgotamento mas, num flash cegante, as estrelas se apagam.
Imersa num nada infinito, Si se estica em todas as direções tentando tocar as notas à sua volta mas apenas tateia pedras frias e silenciosas. O medo reacende Si, sua luz ainda tênue, revela estrelas mortas. Se intensifica um pouco mais e percebe as formas e cores únicas de cada cadáver orbitando em sua volta. Si brilha intensamente, um choro agudo e eterno vela um luto negro e infinito. As outras estrelas, notas, são uma lembrança anelar próxima.
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A multidão flui em torno do Homem perdido em Si. Uma única nota solitária brilha na noite na cidade.

