Contêiner: no bar todos são estiva

A certa altura, com mais garrafas na mesa que pessoas nas cadeiras, uma reflexão alcoólica é vomitada sobre a mesa: os contêiners são iguais em todos os portos do mundo, quem sabe do universo! Uma nova garrafa é decaptada e sua, sangrando de copo em copo atrás de sentido. São como as garrafas, esvaziadas aqui hoje, amanhã cheias sabe-se lá onde — defende copo meio cheio. Mas garrafas só levam breja — retruca copo meio vazio. Contêiners são porta-tudo: breja, celular, arte, sapato, arroz, ak-47, roupa, coca — cola ou ína — e até gente. Hoje aqui em Santos, amanhã Hong-Kong depois Roterdã, depois… Os mesmo? — interrompe o mais bêbado. Sim! — responde um irritado côro. Contêiner não tem dono, vai-volta que nem butijão. Não tem nome, cpf, rg. Não tem idade, cor, raça. Nem religião ou filiação. Todos se entreolham, um orgulho embriagado enche os olhos sábios e vermelhos. Nós temos isso tudo, menos dindin. E haja pra ir onde eles vai. Um riso coletivo alto é interrompido por copos que batem vazios na mesa. Desembarca outra aí que a gente não embarca, só libera a carga pra desembarcar em outra mesa outro dia.

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