Convite

Conto

Finalizo a montagem da copa para o café, da sala para o jantar, ou comeremos no sofá, pizza, televisão? Pratos, taças, pires, canecas, talheres, martelo, preparo tudo. Espalho álcool, flores e velas por todo o apartamento. Desfaço os lençóis guardados, costuro o encosto da poltrona velha. Preparo o pão, patê, vinho, pipoca, o assado e cappuccino. Faltará algo para a sobremesa. Ligo o som, rap ou bolero? Espero que goste, ou então que deteste. Escovo as roupas, rasgo as fotos, limpo o vômito no fogão, desinfeto a banheira, quebro o espelho, organizo os cacos, rasgo as toalhas, ajeito o quarto, despejo a vodca na pia e na garganta. Talvez o faça feliz. Talvez me despedace. Separo os CDs, abro o vinho e todas as janelas, tranco o quarto, limpo o gozo solitário no chão do corredor. Aprumo os garfos na mesa, amolo as facas e espetos, acendo o incenso na cama, apago a luz na sala, esvazio o aquário e descarto os peixinhos que ele adora.

Aguardo o dia que talvez seja noite. Os anos foram, as contas fecharam. Resgato apenas a sorte de ter esse eu com quem vivo só, mas sempre comigo. Quero que morra e que fique, quero partir e não mais o deixar. Seremos um ao fim, ou ainda mais?

Saio pela porta até o fim do corredor, respiro a ansiedade da partida, viro, desaperto a gravata e reentro em casa disposto e aflito. Dou boa noite sorrindo ou um bom dia apressado. Largo a pasta sem graça, sento à mesa disforme, agradeço comovido o jantar e o veneno. Sirvo a mim com enfado, recuso o café, elogio a harmonia da casa, as cores fortes, os cheiros discretos, aprecio os móveis quebrados e sorrio agradecido ao definitivo convite da sacada sem grade.