Escorregadia

Leandro Marçal
Aug 9, 2017 · 2 min read

Eram dias pesados, carregados. Desses em que o peso do mundo parece cair sobre os ombros, quando dormir é o único momento de liberdade e paz. As 24 horas da volta ao redor do Sol diária passavam em questão de minutos, sem perceber.

Sozinho, na cozinha, precisei tomar um copo d’água depois de uma inundação provocada por aquelas seis palavras da página 63.

Vida

Cabe na mão

Mas escorre.

Segurei o copo com mais firmeza, com um medo envergonhado de ele escorrer tão rápido como a vida de gente da minha idade que escorregou para outro plano em questão de segundos, sem aviso prévio, voltando para casa.

Podia ser por um vacilo meu ou excesso de segurança: o polegar mal encaixado no lado oposto ao dos outros dedos, a queda iminente e velocíssima, o impacto do vidro se espatifando no chão e a água espalhada por toda a cozinha. Os gritos de “o que aconteceu?” tremidos pela voz de quem se assusta com uma possível queda ou mal súbito que nos obrigue a chamar uma ambulância e tentar se acalmar inutilmente.

O copo também cabe na mão, mas pode escorrer se estiver um pouco úmido e eu um tanto quanto desatento por me atentar demais a coisas demais nesses dias. Dias de trabalho, de luto, de trabalho em luto, dívidas, dores nas costas, cansaço de pensar no cansaço, presença para quem reclama uma ausência.

Os corpos não cabem na mão, mas podem por elas serem tocados de diversas formas. Quando escorrem a ponto de serem tocados sem a vida já escorrida para outros campos e dimensões, não cabemos em nós.

Meu pomo de adão se levantou pela última vez ao dar espaço às últimas gotas percorrendo minha garganta. Lavei o copo e voltei à mesa, ainda impactado por aquelas seis palavras que não escorregavam de mim. Mas cabiam nas mãos daqueles dias, daquela madrugada em que só eu estava acordado em casa, ao som dos carros indo e vindo pela avenida em que moro.

Fechei o livro, subi as escadas. Meu sono não cabia na mão. Deitei na cama e fiz questão de não fechar a janela do quarto. Queria acordar com o sol escorrendo em minha face.

Crônica baseada no poema Vida, do livro Vento Noroeste, de André Argolo

Inominável

Coletivo de Escritores de Santos

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Escritor, careca e ansioso. Autor de "De Letra: o futebol é só um detalhe" e “No caminho do nada”.

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