
Mentira
Conto
O menino dormia e era melhor assim, diria era uma benção se acreditasse em força divina, anjos, milagres ou bênçãos. Então agradeci que era melhor e pronto. Ele dormia então não sofria a dor física, que talvez preferisse se pudesse escolher. Não podia, era norma a morfina, o plano de saúde cobria, o Estatuto da Criança exigia. Era menino, mas encarava a doença com serenidade desconcertante, sem lamentar ou chorar, sem desespero. Carregando eu toda a raiva e frustração, mantendo o sorriso, entortando-me com o maior dos medos.
Estranhei o som no quarto ao lado, de tanta gente, coisa rara àquela hora tão tarde para as visitas. Distingui crianças, idosos, três ou mais parentes, amigos. Poderia ouvir as conversas, a parede permite. Mas andava farto daqueles diálogos vacilantes e patéticos em que tentamos recuperar uma normalidade que já não há. Conversas de silêncios e tagarelices, em que se tenta dizer o que nunca foi dito. Em que se planeja próximos dias, de novos mimos que esperam em casa quando voltarem, se voltarem. Conversas que se esvaziam de tão urgentes. Ficando a descoberta tardia de que, se havia tanto a dizer, mais havia a escutar. Mas agora a vida, o que resta dela, cala, apenas cala. E não há o que dizer, exceto mentiras. Mentiras de que se vai melhorar, de que o mundo vivido estará de volta, que o mundo espera por nós, que haverá outro domingo de sol para pedalarmos juntos e tomar açai no caminho de volta.
O menino dormia e agradeci que não acordou quando no quarto ao lado as vozes aumentaram, o choro desandou, os enfermeiros correram, as crianças foram afastadas, os velhos rezaram alto e logo as vozes repetiram e repetiram que voltou para junto de Deus, era um anjo, está melhor agora, deixou de sofrer.
Acordou horas depois, tinha o rosto tranqüilo e cansado. Os olhos francos e pretos, sorrindo para mim como fez por toda sua vida. E como se acordasse em casa naqueles domingos perguntou:
— Dormiu bem, velho?
Menti.

