O cadáver do invisível
Na cidade muita coisa se perde. Só a morte aparece e desvia do caminho em linha reta quem ousa “perder” alguns segundos e observar um corpo caído, acolhido pela folha que despencou de um galho que soberanamente se mantém no alto.
Um universo em miniatura se constrói e se destrói; e volta a se compor na invisibilidade dos esbarrões, pisadas e olhares fixos.
Ao chegar num voo raso ele plaina no ar, bica de lado, muda a posição, bica novamente e some. Mágico adorno para a velha Acácia-amarela que se precipita de flores incessantemente; e causa efêmero espanto, na volúpia de transeuntes que se atropelam com as vistas para baixo quer seja para as vitrines das mais ambiciosas confecções, quer seja para os celulares que se abarrotam de mensagens urgentes. Urgentíssimas.
O miúdo e irrequieto pássaro não se inibe diante da perspectiva cinzenta e fria, comemora com a mesma alegria milenar as últimas flores da estação, despontadas no galho aniquilado que destona dos outros que floriram bem antes e fazem o recolhimento para a próxima florada.
A vida embalada nesta passarela de equívocos, tem de um lado, sorrisos largos, e do outro, o olhar em profundo desalento; que segue madrugada adentro protegido pelo cobertor, abrigado debaixo da marquise.
Quando o sol levanta, saúda a manhã para o espectro do cobertor que aguarda o voo matinal, depois, perambula nas ruas e retorna ao anoitecer.
É mais uma manhã e nessa o pássaro não contempla o Astro Rei.
O ramo florido bem no alto, ainda carrega a frescura da noite se reservando àquele que buscaria o néctar, o substancial alimento que fora preparado na calada das horas mais tardias para ser oferecido ao visitante.
Mas, não há mais a rapidez das asas em movimento para cima e para baixo e nem a ternura da criatura que enternece e adoça a vida desajustada do esmoleiro.
As folhas desprendidas da Acácia-amarela forram o chão da calçada, o pequeno colibri, de corpo enrijecido, jaz sobre elas.
As mãos pedintes, impregnadas de amor e dor, toca o minúsculo cadáver e o cobre com as folhas iguais as que lhe serviram de leito, quando despencou e rodopiou no ar e atingiu o solo.
O silêncio é rompido pela compaixão. Há uma infinidade de folhas que daria para cobrir muitos corpos.
Rodeados pela cegueira, somente o solilóquio, de morte e solidão.

