A Arte de Criar Experiências de Aprendizado

Reflexões sobre um Projeto Voluntário em Educação

Sou um apaixonado por educação! Afinal, aqui chegamos como humanidade pela nossa capacidade de aprender uns com os outros.

Há três anos atrás, eu tive uma experiência muita marcante na minha vida. Desenvolvi junto com meu amigo Luan Maia um projeto voluntário (Hashtech) para oferecer a eletiva de lógica de programação numa escola pública do RJ. Aprendi muito com essas aulas e com os nossos alunos. Estou aqui agora para contar um pouco sobre a filosofia de aprendizagem que nos guiou e sobre o que aprendi sendo professor nessa disciplina.

Parte da Turma do Projeto Hashtech na Escola Orsina da Fonseca

1. Filosofia de Aprendizagem

Antes de mais nada prefiro falar em aprender e não em ensinar (até tento evitar este termo). Não estou sozinho nessa, um dos princípios do MIT Media Lab é Learning over Education. Ensinar passa a ideia de que o professor vai pegar um conhecimento que está em sua cabeça e colocar na cabeça do aluno. Não acredito nisso! Acho que o professor pode sim, no MOMENTO certo, fazer as PERGUNTAS, contar as HISTÓRIAS e criar as EXPERIÊNCIAS certas (e aí o timing faz toda a diferença!). É no momento em que o aluno alcança o AHA!, o Eureka!, o INSIGHT, é que tem uma experiência de aprendizado mais profunda e não um copia e cola, uma simples memorização (a famosa decoreba para ir bem na prova). Gravar uma informação é uma coisa, aprender é outra!

Acredito que a base do aprendizado, seja na escola ou na vida, é o processo iterativo de — Fazer/Criar/Produzir/Viver — e depois — Refletir/Analisar — . Acredito que as pessoas aprendem pra valer quando colocam a mão na massa e refletem sobre a experiência: Para aprender, precisa fazer essa roda girar!

Uma forma de implementar isso na prática é o método da Aprendizagem Baseada em Projeto (Project Based Learning), em que os alunos se envolvem com tarefas e desafios e trabalham em equipe para desenvolver um projeto ou um produto. Isso faz com que o aluno tenha um papel ativo no seu aprendizado. Esse método é potencializado quando utilizado em conjunto com estratégias de Personalização do Ensino (entendimento que cada aluno é único com suas potencialidades e limitações).

Depois de criar, vem a etapa de refletir sobre as experiências! Geralmente as pessoas passam batido nessa etapa e não dão a atenção merecida, seja nas aulas ou mesmo na vida. Pouco tempo é dedicado para pensar e discutir as lições aprendidas. O professor pode estimular essa reflexão a nível individual, na forma de conversas de feedback, mentoria ou de acompanhamento de planos individuais de aprendizado. Pode também fazer essa reflexão em grupo para discutir os projetos concluídos. Os caminhos são diversos, o importante é reservar um momento para aprender com os erros e acertos.

E quanto ao professor? O que tenho a dizer? Vejo o Professor como um facilitador do aprendizado, como artistas que criam as experiências de aprendizado!!!

O professor é ou deveria ser o mestre da comunicação! Acima de tudo, comunicação é transferência de emoção entre as pessoas. Por que é tão estranho então pensar que os professores precisam ser craques na arte de emocionar? Fazer com que os seus alunos cheguem no Wow! Aha! Haha! O verdadeiro aprendizado envolve emoção!!!

O professor precisa ter Entusiasmo! Esse é o ponto de partida de uma experiência de aprendizado incrível! Descubra o que te deixa entusiasmado para dar aula!

Nothing great was ever accomplished without enthusiasm! — Emerson

O professor poder usar o Suspense e a Surpresa para tornar suas aulas mais interessantes. Supresa vem de eventos inesperados. Suspense é desenvolvido ao longo de uma história, conforme ela se desenvolve. Suspense e surpresa criam um impacto emocional! O mundo real é cheio desses elementos e é muito mais imprevisível do que aparenta ser numa aula tradicional.

Por fim, o professor deve buscar a Leveza. Uma aula descontraída convida alunos a arriscar, a não ter medo de tentar e torna todo o processo de aprendizagem mais agradável.

Humor helps to convert ha ha into aha! — Patrick Herbert.
Students learn more when they are having fun — Sullivan.
Não leve a vida tão a sério, você não vai sair vivo dela. — Autor Misterioso

Vamos então a nossa experiência prática com o projeto voluntário!!!

2. Experiência Projeto Hashtech

Acreditamos desde o início que era fundamental dar autonomia para que os alunos criassem seus projetos com base nos conceitos explicados na aulas. A oportunidade de deixar a sua marca motivava os alunos! Decidimos que esse seria o foco da nossa aula, decidimos que iríamos estimular a criatividade dos alunos e não a mera repetição de conhecimento. Uma frase foi muito inspiradora para nós e guiou o nosso trabalho foi:

“A vantagem competitiva de uma sociedade não virá apenas da eficiência com que se ensina multiplicação e tabela periódica, mas do modo como se estimula a imaginação e a criatividade” — Albert Einstein

Nossas aulas eram compostas por 3 blocos de atividades:

0) Explicação dos Conceitos: Esses conceitos eram a base para eles serem capazes de fazer o projeto (ex.: lógica do plano cartesiano, do círculo trigonométrico, das variáveis, etc). Essa fase de explicação eram bem rápida, o mínimo necessário, pois o foco era aprender fazendo, com projetos e desafios (por isso até coloquei essa etapa como “0”).

Para explicar os conceitos usávamos e abusávamos das PERGUNTAS para estimular a participação ativa dos alunos. Preferíamos estimular a tentativa dos alunos, do que entregar uma resposta pronta. Gostávamos de construir o conceito com a turma, aproveitando a contribuição espontânea de cada aluno. Sempre tentávamos também ilustrar ao máximo com EXEMPLOS e HISTÓRIAS que fossem próximos da realidade dos alunos, que fossem relevantes para eles.

1) PROJETOS e Desafios: Aqui estava o ponto central das nossas aulas. Nessa fase os alunos recebiam um material de orientação, que continha o objetivo do projeto, os projetos de referência que poderiam servir como inspiração, lista dos blocos de programação que poderiam ser utilizados e sugestões de ideias adicionais.

Percebemos com o tempo que esse material de orientação estruturado era importante para dar aos alunos os elementos necessários para desenvolver os projetos. Esses eram os tijolos que permitiam aos alunos fazerem suas construções com autonomia! Percebemos que era necessário encontrar um equilíbrio entre a orientação e a autonomia para criar e que esse equilíbrio variava de acordo com cada aluno. Alguns precisavam de mais e outros de menos orientação.

Depois de algumas aulas passamos a usar desafios também. Descobrimos que desafios são bons para trabalhar de forma mais focada nos conceitos e para deixar os alunos mais preparados para fazer os projetos. Foi interessante ver que mesmo nos desafios é possível que o aluno deixe sua marca. Era comum encontrarmos caminhos diferentes de resolver um mesmo desafio. Além disso, os desafios eram um bom termômetro das dificuldades que os alunos estavam tendo.

Uma outra forma offline e divertida que encontramos para trabalhar os conceitos foram as DINÂMICAS e JOGOS.

2) Reflexão sobre os Projetos e Desafios: Na nossa aula dávamos especial atenção para essa fase. Esse era o momento de os alunos apresentarem seu projeto/desafio na frente da turma, tirar dúvidas de seus colegas e discutir novas ideias para adicionar ao projeto. Nesse momento, nós, como facilitadores, estimulávamos a discussão com PERGUNTAS, mas deixávamos os alunos serem os atores principais!

Dá para ver que todo o processo de aprendizado era intensivo em trabalho em equipe e em comunicação. Os alunos eram estimulados a expor seus projetos e desafios na frente de todos. Os alunos trabalhavam em dupla e os que iam terminando passavam a ajudar os outros a resolverem a atividade (segundo algumas pesquisas a melhor forma de você desenvolver um conhecimento é explicando para alguém). Só passávamos para a próxima atividade quando todos tinham terminado.

3. Conclusão

Você que é professor, independente da sua área de atuação, te convido a criar experiências de aprendizado emocionantes a partir do modelo de aula utilizado no Projeto Hashtech. Use a criatividade e adapte para sua realidade! Seria um prazer escutar sobre os acertos e erros dessas tentativas!

Uma das lições que tiramos de todo esse processo é que a aprendizagem é algo constante, é um processo iterativo contínuo. Foi muito legal ver professores já experientes tendo a humildade de trocar ideias com jovens como nós e estarem abertos para continuar aprendendo.

Gostaria de fazer um agradecimento especial aos nossos alunos e a todas as pessoas que possibilitaram essa experiência incrível: Luan Maia, Nathalia Rodrigues, Leila Garcia, Camilla Garcia, Marcos Mattana, Bárbara Portilho, Rose Antunes, Maria Zamith, Lucas Machado e Tiago Maluta.

Para encerrar vale lembrar a mensagem que inspirou o Projeto Hashtech:

“Acreditamos em uma escola diferente…
Um lugar em que os alunos usam a imaginação e a criatividade…
Onde tenham a oportunidade de criar, e não só consumir…
Onde aprendam novas tecnologias que aumentem seu poder de criação.
Acreditamos que uma escola com estes ideais forma os
JOVENS INOVADORES QUE MUDAM O MUNDO!” — Projeto Hashtech

P.S.1: Para quem quiser ver os mais de 100 projetos produzidos pelos alunos no Scratch é só acessar: https://scratch.mit.edu/studios/374261/. Caso queira ver os vídeos com a experiência das aulas, acesse: https://www.youtube.com/channel/UCmGw5BskD3QrEItGOhtbq0w

P.S.2: Os princípios do MIT Media Lab estão bem alinhados com a filosofia de aprendizagem em que acredito. Dentre eles, vale destacar: Practice over Theory, Pull over Push, Compass over Maps. Para mais informações ver o livro do Joi Ito.


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