Resenha sobre O Paradoxo do Brasileiro.

Provocações filosóficas que ilustram as ideias criticadas e ajudam a construir conhecimento através de uma base argumentativa sólida que foge do senso comum.

O Paradoxo do Brasileiro, apresentado por Eduardo Giannetti em seu livro “O Elogio do Vira-Lata”, retrata a propensão psicológica de abstenção frente à coletividade e o ideal narcisista do sentir-se melhor que os outros indivíduos ao seu redor. Giannetti descreve e exemplifica algumas dinâmicas da natureza humana que conduzem os indivíduos e estruturam o fenômeno da baixa confiabilidade, que é o fio condutor de sua obra. Em sua ideia central, o autor aborda a racionalização do indivíduo e eventos de causalidade que não são bem elaborados, o que reforça o efeito esperado — de que há uma contradição– e que coletiviza todos os indivíduos como praticantes de ações convenientes que dão espaço para a existência do paradoxo. Porém, há também uma impecável análise da fragilidade moral e de suas consequências em um cenário social que distancia o indivíduo do sentimento de pertencimento, abrangendo as manifestações no imaginário coletivo estudado por Jung¹.

O individualismo, presente no texto de Giannetti, é mostrado como algo muito presente no Mundo e principalmente no Brasil, onde, segundo o texto, apenas 4% dos brasileiros confiam nos indivíduos ao seu redor. Tal princípio pressupõe que o ser humano usa apenas a razão para alcançar seus objetivos, que o leva, inclusive, a usar o Fudge Factor — má-fé, de Sartre² — para se convencer que a ação desejada é legítima e para justificar pequenas falhas morais — dando margem para o “oportunismo imediatista”, como diz o autor. Tal ideia corrobora o conceito do falso individualismo, de Hayek, desenvolvido em seu livro “Individualism and Economic Order”, em que ele diz que o sujeito que usa apenas a razão para atingir seus objetivos individuais — também usado no dilema do prisioneiro iterado — segue o falso individualismo e da espaço para a coletivização, legitimando também o contrato social. Tais consequências são proveniente dos efeitos dessa falsa visão, em que a razão é o único fator que condiciona o ser a tomar decisões, sendo possível deduzir aprioristicamente todo o efeito de sua ação, visto que ignoraríamos as vontades e impulsos — Conatus, como diria Hobbes³ — dos quais o indivíduo é dotado. Dessa forma, utilizando o falso individualismo, se poderia prever toda ação individual, pois uma vez que a razão é o combustível das decisões, a performance pode ser calculada e aplicada universalmente, sendo possível prever os resultados da ação humana, o que não é real. Portanto, para Hayek, o verdadeiro individualismo é aquele que o indivíduo usa a razão e utiliza seus impulsos e vontades para realizar algo, cujo resultado seria objeto de um juízo subjetivo.

Dentre os diversos argumentos usados por Giannetti, um deles chama atenção para a propensão psicológica de desprendimento ao coletivo. Quando o autor argumenta sobre a deficiência moral da ação coletiva no Brasil, ele destaca, principalmente, a dinâmica do free-rider na sociedade e o quão destrutivo seria o indivíduo abrir mão de cometer seus pequenos delitos e deslizes éticos para seguir as regras do jogo. Parafraseando o autor, por que o indivíduo seria moral em uma sociedade de aproveitadores e gananciosos, que tirariam vantagem dele para continuar com seus benefícios? Tal questionamento, evidentemente, demonstra a desconfiança presente na sociedade e a visão arquetípica de Jung, como se houvesse um “arquétipo do brasileiro”, como uma representação no imaginário coletivo de que o brasileiro é imoral e oportunista. Assim, cria-se um cenário de desconfiança tão grande que leva o indivíduo a se afogar cada vez mais em seu narcisismo e a contemplar que, como diria Sartre, “o inferno são os outros.

Assim, fica evidente que há um efeito Fudge Factor muito forte na dinâmica do Free-Rider na sociedade brasileira e que os arquétipos, idealizados por Carl Gustav Jung, também são muito presentes no imaginário coletivo da sociedade brasileira. Tais fatores, somados com a visão hayekiana de individualismo, ilustram e apresentam muito bem a síntese do paradoxo do brasileiro, sendo, evidentemente, um fator psicológico, ético e ideológico que se extrapola para toda a condição humana, uma vez que essa desconfiança reforça traços sociais e denuncia as instituições da sociedade e suas influências nas dinâmicas interpessoais.

Artigo originalmente publicado como vencedor do Prêmio Pensamento Crítico 2018 no site do Insper. Luccas Bergami é estudante de economia e membro do grupo acadêmico Insper Liber.

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¹ Carl Gustav Jung, psicanalista suíço que desenvolveu a ideia de arquétipos em seu livro “Arquétipos e o Inconsciente Coletivo” de 1969.

² Conceito atribuído a Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista francês, que ilustra o argumento apresentado.

³ Thomas Hobbes, filósofo inglês, desenvolveu o tema da conatus juntamente com Baruch Espinoza e ilustra o impulso representado no texto.

Frase atribuída a Jean-Paul Sartre, presente em sua peça “Entre Quatro Paredes”.

Bibliografia 1: JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Perrópolis, Rj: Vozes, 1969. 469 p

Bibliografia 2: VON HAYEK, Friedrich August. Individualism and Economic Order. Chicago: The University Of Chicago, 1947. 282 p