Foto: Dirso Barelli

Peças Feitas Para Você, Com Amor

Ingrid Queiroz
Jul 13, 2018 · 7 min read

Uma nova forma de consumir roupas, com maior conscientização sobre questões sociais e ambientais. Conheça a PanoSocial, um negócio que une moda, sustentabilidade e a ressocialização de ex-detentos.

“Transformar vidas marginalizadas e contribuir para a paz social.” Para muitos, a frase de efeito pode representar apenas um sonho. Daqueles distantes, até mesmo para quem vive tão perto de uma realidade marcada pelas diferenças de classe social, pela pobreza e pela violência. Realidade essa que se expande cada dia mais, mas que, paradoxalmente, permanece distante de tantos olhares. Enxergar além das belezas naturais de seu novo país por adoção, foi o que fez Gerfried Gaulhofer, europeu nascido na Áustria, ao chegar, em 2002, em São Paulo.

Foi pelas tradicionais ruas do centro, por trás da arquitetura histórica, que o mais novo morador da capital paulista conheceu outro lado da cidade, com histórias contadas por homens e mulheres que vivem ali, marginalizados pela sociedade. Estar diante daquela triste realidade fez um novo mundo se abrir para Gerfried. Assim surgia o desejo de fazer algo a mais por aquelas pessoas e também pelo coletivo.

POTENCIAL PARA TRANSFORMAR

Gerfried, que é designer por formação, começou a buscar inspirações para criar uma solução capaz de ajudar a resolver a marginalidade na região. Foi quando, certo dia, conheceu um padre, também austríaco, chamado Gunther Zgubic, que na época prestava serviço social na Pastoral Carcerária do Brasil e trabalhava mediando conflitos dentro de prisões, como a Carandiru.

Não foram necessárias muitas visitas para Gerfried confirmar o que os números já diziam: a terceira maior população carcerária do mundo vive em superlotação nas prisões. O cenário se agrava mais ainda com a alta reincidência criminal (quando os ex- detentos voltam a cometer crimes e são presos novamente), que chega a 80%. Apesar da realidade alarmante, o austríaco, sensibilizado com as questões que envolviam a marginalidade, estava certo de que existia um grande potencial de transformação ali.

Logo, Gerfried, que já trabalhava em um projeto relacionado a sustentabilidade, uniu-se à sua parceira, a produtora de moda Natacha Barros, para que pudessem oferecer melhores condições de vida para os egressos do sistema, reduzir a violência e gerar maior impacto positivo para a sociedade, assim como para o meio ambiente.

A ESCOLHA PELA MODA

Assim, em 2014, os dois lançaram a PanoSocial, um negócio social cujo propósito é a ressocialização de ex-detentos de São Paulo por meio da produção e da comercialização de camisetas, uniformes, acessórios e produtos customizados, sempre fazendo uso de matéria-prima natural e processos sustentáveis. Para toda a produção utiliza-se algodão 100% orgânico, extratos e pigmentos naturais. E também, por ser uma empresa social, todo o lucro é utilizado para o crescimento do negócio.

A identificação com o universo da moda não foi por acaso. O segmento necessita de contratação intensa. Pela falta de mão de obra, muitas vezes, as jornadas de trabalho ultrapassam 16 horas diárias. “Por que não capacitar e dar oportunidade a homens e mulheres que acabaram de sair da prisão?”, questiona Natacha Barros. No Brasil, apenas 9% dos ex-detentos conseguem ser reinseridos no mercado de trabalho. Na PanoSocial, hoje, 60% da equipe de produção é composta por ex-detentos, que são constantemente capacitados.

SEGUNDA CHANCE

Um deles é o Igor, 22 anos, que hoje é assistente de Gerfried e Natacha.

“Todo mundo merece uma segunda chance. Mas às vezes faltam boas oportunidades, sabe? Mesmo correndo atrás da minha, sempre questiono se vão me dar ou não. Hoje, a PanoSocial significa uma verdadeira família para mim; eu vi na Pano a porta da oportunidade, a minha chance de crescer, de gostar de alguma coisa que eu nunca tinha aprendido, de me sentir útil. Eu levo o passado como aprendizado, e hoje a minha família está orgulhosa. A palavra que me resume é tranquilidade”, descreve Igor.

Cada camiseta, cada produto, possui uma história de superação, de transformação e construção vivida por um ex-detento que está reescrevendo a própria vida. A cada venda uma dessas vidas está sendo transformada. Apesar de acreditar que todos têm o direito de recomeçar com um trabalho digno, a PanoSocial não seleciona egressos que estiveram envolvidos com questões relacionadas à violência contra mulheres, crianças e idosos nem a estupros. Para todos os contratados, a empresa oferece acompanhamento psicológico com foco no desenvolvimento humano, que inclui até técnicas de meditação.

IMPACTO AMBIENTAL

A PanoSocial promove uma nova forma de consumir a moda paralelamente a uma nova consciência sobre as questões sociais e ambientais.

“Nossa preocupação não está apenas na venda, mas no impacto que geramos pela comercialização de uma simples camiseta”, explica Natacha.

Isso porque a indústria da moda ocupa o segundo lugar na geração de impacto negativo para o planeta, atrás apenas da indústria do petróleo.

O grande vilão é o algodão convencional, cultivado em grandes quantidades no Brasil. Hoje somos o quinto maior produtor. E uma das grandes diferenças entre o algodão convencional e o orgânico é a quantidade de água utilizada em cada produção. Para fazer uma única camiseta de algodão convencional, por exemplo, gastam-se 2.750 litros de água! Se o algodão for trocado pela versão orgânica, a quantidade total cai para apenas 275 litros, economizando assim 90% de água. Não é pouca coisa.

Além de colaborar para a ampliação da reserva hídrica, o algodão orgânico traz outros benefícios para o meio ambiente, pois em seu cultivo não é necessária a aplicação de pesticidas e inseticidas. Por consequência, reduz-se a poluição dos mananciais e o uso da energia elétrica que é gasta com todos os processos.

“Quem adquire qualquer um dos nossos produtos, sabe que usamos o algodão orgânico e por isso oferecemos peças de alta qualidade, com maior durabilidade e com respeito à natureza. A nossa etiqueta é socioambiental. Em cada item é possível conhecer a nossa história e a procedência”, explica Gerfried.

CONSCIÊNCIA VEM DO CLIENTE

Organizações como a Fashion Revolution e movimentos como o Fashion Revolution Day vêm incentivando os consumidores a saber quem fez as suas roupas, promovendo assim o conceito de uma moda mais ética e sustentável. “Nós percebemos que as pessoas estão mais conscientes sobre a produção das suas roupas”, conta Natacha. As marcas também seguem engajadas nesse sentido e, mais do que comprar um fardamento, por exemplo, querem fazer parte da transformação, valorizar todo o processo de confecção de suas peças, além de realizar negociações diretas e remunerações mais justas, como é o caso do Instituto C&A, do Greenpeace e do WWF, que fazem parte da carteira de clientes da PanoSocial.

Além de negociar diretamente com empresas, a PanoSocial também atende ao consumidor final em seu ateliê localizado na Galeria Metrópole, ali no mesmo centro de São Paulo que Gerfried visitou quando chegou no Brasil e quis tanto ajudar. Outro ponto de venda é o site (www.panosocial.com.br), além da venda por atacado no Shopping Mega Polo Moda, na famosa região do Brás (SP).

ALÉM DO LUCRO

Os desafios ainda são muitos para Gerfried e Natacha. Um deles é o movimento chamado Fast Fashion, a tal da “moda rápida”, movimento em que grandes marcas trabalham a produção de larga escala, oferecendo “peças-tendência” para serem usadas — e descartadas — em curto prazo. O giro é mais rápido, os preços, muito mais baratos e o impacto ambiental, enorme: so- mam 400% a mais de emissão de carbono se comparadas com peças com mais tempo de uso. Além, claro, do incentivo à contratação de mão de obra muitas vezes ilegal.

Gerfried e Natacha, que criaram a PanoSocial a partir de um propósito que vai muito além do lucro, revelam que a única tendência que querem seguir é a da responsabilidade social e ambiental de seus produtos. O que mais os inspira a continuar é saber que, através da produção e da venda de uma simples camiseta, muitas vidas que estavam antes marginalizadas têm hoje um trabalho digno. Que a produção de algodão orgânico nacional hoje é incentivada. E, por fim, que o consumidor final começa a refletir sobre quem faz a sua roupa e de onde vem a matéria-prima necessária.

“Transformar vidas marginalizadas e contribuir para a paz social.” O que seria apenas mais uma frase de efeito para muitos, ou um sonho distante, fez Gerfried e Natacha mostrarem que, sim, é possível transformar vidas marginalizadas, contribuindo para a paz social e para uma sociedade mais justa. E que o sonho continue.

*Este texto foi baseado na série documental Inspire & Conte-me e escrito especialmente para a revista Bons Fluidos por Ingrid Queiroz, fundadora da Inspire Content, produtora de conteúdo que ajuda às organizações contarem suas histórias a partir de narrativas sociais. A edição é de Renata Armas, a quem agradecemos imensamente pelo espaço e por ajudar a inspirar muito mais pessoas!

Para assistir ao episódio da série Inspire & Conte-me, que conta esta história, dá o play abaixo!

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Founder na Inspire Content | Empreendedorismo| Inovação| Impacto social | Branding | Storytelling | Documentários | ingrid@inspirecontent.com.br

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