A favela grita por justiça

A Favela tem sido um espaço de demonstração da segregação espacial, social e econômica

Foto: David Oziel, Boston, MA, USA. Behance

Na Cidade do Rio de janeiro, a “Favela” grita por justiça! Bem, assim terminava o texto anterior por aqui. Vale lembrar que, assim como dissemos anteriormente, justiça é um conceito que abarca duas ideias principais: “dar a cada um o que lhe é devido” e “reparar o dano, indenizando a vítima ou punindo o infrator”. Seria a justiça a regular as chamadas relações sociais. Logo, qualquer relação que se estabeleça sem justiça, iminentemente, e em um processo histórico fica desregulada e descamba para o desajuste. Retomamos essa reflexão para uma descrição que possa demonstrar nem que seja o mínimo o grito por justiça, não só junto dos favelados, mas também com todos os que sofrem injustiças onde quer que estejam. Sejam injustiças econômicas, morais, éticas, de gênero, ao detento, político etc.

Desde o seu surgimento, a Favela tem sido um espaço de demonstração da segregação espacial, social e econômica na Cidade do Rio de Janeiro, bem como no Brasil. Uma equação que de forma injusta cria um espaço (não existe só esse) onde nossas desigualdades ficam aparentes. De acordo com alguns, esse tipo de habitação (chamada de favela) é resultado de vários fatores, entre eles: industrialização, mecanização do campo e crescimento vegetativo da população urbana.

Andrelino Campos, geógrafo, descreve uma associação que por hora seja necessária listar e fazer-nos lembrar já no título do seu trabalho “Do Quilombo à Favela: A produção do ‘espaço criminalizado’ no Rio de Janeiro”.[i] A obra da Andrelino contribui para que a “geografia dos vencedores” se junte a uma dos negros, dos pobres e seus espaços. Ali, o autor, mostra com maestria como o Estado brasileiro fora responsável, não só pela criação desse espaço segregado, mas também por estigmatiza-lo e através dos seus aparelhos de repressão sempre favorecendo as elites, estabelecer uma relação de conflito com os cidadãos menos favorecidos desses locais[ii]. Com uma lógica de conflitos, segregação econômica, social e espacial, esses locais, não só estigmatizados e abandonados ao “deus dará”, tornaram-se espaços de domínio de outras forças que concorrem com o Estado, de proliferação de violência, de afastamento e consequentemente ódio as autoridades públicas, enfim, criminalizado.

Neste processo descrito acima, podemos dizer que foi negado aos moradores das favelas (lembrem que não só a eles) o que lhes é devido; ou seja: Um pertencimento a um modelo de vida e sociedade vendido pela ideologia liberal e que deveria ser para todos, não só para alguns. Só para dizer: educação, saúde, segurança, saneamento básico, acesso ao mercado de trabalho etc, são direitos de todos!

Quando se nega a alguém ou a algum grupo tais direitos, temos o estabelecimento de um processo histórico de injustiças. Logo, qualquer relação que se estabeleça sem justiça, iminentemente, e em um processo histórico fica desregulada e descamba para o desajuste. Isto pode estar demonstrando a nossa sociedade que a violência (desajuste) tão presente em espaços segregados acaba por ser um grito de justiça, cuja solução seria reverter o processo e estabelecer a justiça nesses espaços, dando a cada um o que lhe é devido.

Vivemos dias terríveis. Vivemos dias que Leonardo Boff descreveria como diabólicos (injustos também. Diabolices e injustiças são a mesma coisa). Boff descreve a realidade social\individual\humana urdidas pela dimensão sim-bólica e dia-bólica[iii]. Neste sentido, sem me estender, a descrição de Boff propõe que toda realidade diabólica (provem de dia-bállein). Literalmente significa: Lançar coisas para longe, de forma desagregada e sem direção; jogar fora de qualquer jeito. Dia-bólico, como se vê, é tudo o que desconcerta, desune, separa e opõe. Já sim-bólico é o oposto disto.

Talvez seja necessário pensar se o próprio Estado brasileiro não é diabólico; sendo ele este ente que cria a realidade que separa, desagrega, desune etc. podemos afirmar que sim (mas não só ele). Sem nenhuma intenção de justificar, mas, sim, explicar a violência como um fato dado, pode-se afirmar: Contra esta realidade diabólica e injusta, aqueles que estão submetidos ao processo (diabólico) gritam por justiça.

“…corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene! “ (Amós 5:24)

[i] CAMPOS, Andrelino. Do Quilombo à Favela: A produção do “espaço criminalizado” no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

[ii] IDEM. Pg. 161

[iii] BOFF, Leonardo. O Despertar da Águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. Petrópolis, RJ: Vozes,3003. Pg. 15


Jairo Ricardo de Souza é teólogo, sociólogo, professor, pastor batista, apaixonado pela fotografia. Nascido no interior de São Paulo, em Mogi das Cruzes, carioca de coração desde os seus cinco anos de idade. Criado na Favela do Muquiço.

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