Eu não tenho fome de Deus

Quem tem fome de Deus, aceita qualquer coisa que lhe ofereçam, mesmo que não seja “saudável” ou “não cheire bem”.

Ele tem fome de Deus. E gosta tanto dessa fome, que procura seduzir, conduzir e reduzir qualquer um ao mesmo estado. Ele ignora a inexistência de qualquer valor ou virtude na fome. Todas as fomes. Inclusive a fome de Deus.

Não fazemos ideia do que é estar faminto. Nós, privilegiados, chamamos “fome” a expectativa entre as refeições. E não achamos ofensivo dizer: “Acabei de preparar o jantar, e espero que vocês estejam com muita fome.”

Nunca passamos da “expectativa da próxima refeição” à “esperança de qualquer refeição”. Jamais atravessamos um dia sequer sem ter o que comer. Nem uma vez tivemos que pedir ou tomar para comermos ou darmos de comer.

Nessa condição, quem tem fome, inclusive fome de Deus, aceitará qualquer coisa de qualquer um. Inclusive das franquias da religião e seus franqueados. Ainda que eles o manipulem, o cativem, o conformem, o explorem.

Nessa condição, quem tem fome, inclusive fome de Deus, aceitará qualquer coisa que lhe ofereçam. Sem críticas e sem condições. Fome tem a ver com urgência e sobrevivência. Não há tempo a se perder. Não há luxos a se dar.

Não precisa ser saudável. Não precisa estar na validade. Não precisa cheirar bem. Não precisa ser apetecível, basta ser comível e estar disponível. Como dizia minha centenária avó paterna: “A fome é o melhor tempero.”

Eu não tenho mais fome, tenho apetite de Deus: as cores, os olores, as memórias, o encantamento, a companhia, a conversa, o lugar. Perder-me. Sem as distrações da agenda. O tempo que não conto, esse é o tempo que conta.

Ele, que tem fome de Deus, propõe o jejum. Eu proponho a mesa farta e compartilhada. Ele aconselha economizar, e eu dou uma festa. E, enquanto ele vai encolhendo a si mesmo, eu vou celebrando o envolvimento.

Eu o compreendo, ele ainda tem fome de Deus. E a fome, como qualquer necessidade, é uma ditadura: ou dá, ou desce. Ela não faz prisioneiros. É matar a fome para não morrer, para continuar existindo, para sobreviver.

E, paradoxalmente, enquanto tiver fome, não conseguirá viver. Ele sobreviverá todos os seus dias exclusivamente em função de alimentar-se. Eu, que já tive fome de Deus, agora, como para abrir ainda mais meu apetite.


Dercinei Figueiredo | dercinei@email.com

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Entre outras coisas que não estou pronto, não posso ou não quero revelar: já saltei de paraquedas; dei perda total em um carro, enfiei a cabeça em um mourão de cerca, atropelei um poste e fui atropelado; caí de skate, bicicleta e moto; transei sem camisinha, bebi e fumei; levei socos, pontapés, fui alvejado e esfaqueado; fui cirurgiado três vezes; fui professor, e sou pastor há 25 anos.

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Redação — Instituto Mosaico

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Graças a Deus o Estado é laico e os direitos são humanos.

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