Liderança no mundo organizacional
Proliferam iniciativas como “fábrica de líderes” e “liderança em série” como se a liderança fosse uma esteira de produção que funciona naturalmente

Para o maestro Daniel Barenboim a música nunca é feliz, triste ou melancólica. Ela é percebida em função do estado de espírito de quem a ouve.[1] O ser dá o tom. Entender a relação da música com o estado de espírito de quem a produz, através da composição, ou de quem a executa, como intérprete, reflete a dinâmica da relação que temos com o nosso ofício e aquilo que realizamos no mundo do trabalho. No filme “O Último Concerto”, de Yaron Zilberman, o professor de violino sugere a sua aluna, após ouvir a interpretação que faz do quarteto de cordas, Opus 131 String Quartet in C# Menor, uma das últimas composições de Beethoven, que “se deseja encarar a obra, é melhor ler antes a biografia do autor. A expressão está além da partitura.”
Há uma relação de interdependência entre a obra e o seu criador. Ou ainda, quem a interpreta e o ouvinte. Na inter-relação reside o caráter único na forma como o som quebra o silêncio, penetra o espaço e modifica o ambiente. Tal qual o rio heraclitiano do ser e a natureza em perpétuo movimento, a conjunção que dá origem a experiência musical nunca se repetirá da mesma maneira e sempre caberá uma interpretação diferenciada.
É o que acontece, por exemplo, no mundo organizacional com a liderança. A construção musical é uma das várias fontes de intepretação da vida, inclusive no mundo empresarial. Por exemplo, há quem julgue na liderança um atributo que se reproduz independente do grupo e do ambiente. A realidade e a diversidade dos seres humanos nos mostram ser vã a ilusão do mundo corporativo em acreditar que os fenômenos se repetem, de forma controlada, como num laboratório. Típico de quem, mesmo sem saber, ainda bebe da fonte positivista de um pretenso mundo ordenado por regras e fórmulas.
Não há receituário que, seguido a risca, fará emergir a liderança como subproduto de um modelo predeterminado. Ou ainda, fazer da liderança um atributo presente em indivíduos dela dotados que os acompanha por onde quer que forem, tal qual a sua própria sombra, capaz de prescindir das características únicas do ambiente e das especificidades do grupo que nele convive. Proliferam iniciativas como “fábrica de líderes” e “liderança em série” como se a liderança fosse uma esteira de produção que funciona naturalmente, uma vez cumprido determinados princípios. Assim como o espírito humano vive em constante mutação, o ambiente nos convoca a ser, provoca e demanda novas com(posições). O espaço nunca é o mesmo. A nossa relação com ele também.
[1] BARENBOIM, Daniel. “El Sonido es vida: el poder de la música”. Ed. Belacqva: Madri. 2007.

Carlos Netto. Diretor de Estratégia e Organização do Banco do Brasil. Graduado em História Social (UFRJ), Mestre em Comunicação Social(UFRJ) e Mestre em História das Relações Internacionais (UERJ)e Doutor em Psicologia Social (USP).

