O ateísmo do teísmo
Abordagem filosófica sobre o “ver” e o “crer”

Quando Caeiro diz em O Guardador de Rebanhos que a “nossa única riqueza é ver”, ele não está se referindo à acuidade de uma visão que pode ser atestada pela medicina nem mesmo a um ver que pode ser corrigido após uma breve visita a uma ótica popular. O grau de percepção desse ver não diz respeito a um dos cinco sentidos humanos, embora em todos os sentidos (incluindo a visão) a riqueza desse ver seja a possibilidade decisiva para qualquer sentir. O ver do qual nos fala Caeiro é proveniente de um olho vazado, aberto como uma vazante fundamental por onde afluem todos sentidos do corpo. A riqueza desse ver, portanto, está presente no toque do escultor, nos ouvidos do maestro, nas narinas do cozinheiro, nas papilas do cervejeiro e nos olhos de um espectador atento.
No fundo do olho desses sentidos encontramos apenas o abisso, o fundo sem fundo, o vazio, a vazante que possibilita todos os sentidos. Mestre Eckhart diz que uma cor determinada apresenta-se no horizonte humano justamente porque o próprio olho é desprovido de tal cor; se o olho fosse constituído pela cor verde, por ex., o próprio verde das coisas não seria visível no matiz multicor. Sem possuir qualquer cor, o olho assim pode ver todo o espectro de cores. Da mesma forma como a não-cor é condição para a cor, o não-ver é a medida de todo ver. Moisés viu a glória do Senhor já em fuga, esgueirando-se, de passagem, “pelas costas”; através de uma visão de través, indireta, oblíqua; sim, Moisés viu “face a face” — a face abscôndita do sagrado.
A “nossa única riqueza é ver”. Mas toda pergunta objetivante, i.e, que traz o ranço da relação sujeito-objeto, a sanha pela prova positiva como moto de sua indagação, já fala de fora da experiência dessa riqueza, fora do ver simples e direto. Tal pergunta traz consigo o olhar enviesado pelo dedo calejado que aponta o objeto, como o tolo que olha apenas para indicador daquele que aponta o aparecer extraordinário da lua. A lua não se encontra na ponta do dedo que aponta; e o “achado” da prova positiva na ponta de um indicador é apenas índice de uma parva cegueira. O discurso objetivo é presunção da consciência, a afronta de um dedo em riste que obriga a presença fugaz a entrar nos ditames da representação, que por isso mesmo será sempre decadente, apequenada, apenas do “tamanho” de sua própria altura reflexiva. Representar é não poder ver o não-ver que vigora em todo ver — “a nossa única riqueza”. Por essa razão, todo discurso sobre Deus — toda indagação sobre a natureza divina ou sobre a prova de sua existência — atesta apenas a baixa visão de quem observa partir do “tamanho” de sua altura demasiadamente humana.
Frei Hermógenes Harada, um grande frade menor, era, como Caeiro, não da altura do seu “tamanho”, mas da altura do que via. Ele disse certa vez algo lapidar sobre o olhar objetivante impregnando o discurso teológico da experiência religiosa. Em um pequeno texto intitulado “Uma Estória sem utilidade”, à guisa de recomendação, ele expôs em poucas palavras o cerne que mobiliza as perguntas acerca de Deus: “Se você é crente, não coloque a pergunta sobre Deus a um filósofo. Ele lhe dirá: ‘Eu não sei’. Se surgir em você a suspeita de que uma tal resposta é a-téia, talvez você não seja crente, mas sim um péssimo filósofo.”

Eduardo Campos. Doutor em Filosofia (UFRJ), Mestre em Filosofia (UFRJ), Especialista em Filosofia Moderna e Contemporânea (UERJ), Licenciado em Filosofia (UFRJ). Atua como pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicopatologia e Subjetividade (IPUB/UFRJ). Professor do Instituto de Psicologia Fenomenologico-Existencial (IFEN).

