O sêmen que nos agride

Dentro ou fora dos ônibus, sofremos com ejaculações alheias todos os dias

Foto: Marina Ogawa, Jovem Pan

Diego Ferreira Novais, 27 anos, é aquele cara que ejaculou na passageira do ônibus em São Paulo. Não foi a primeira vez em que ele resolveu dar vazão à própria tara em cima de mulheres que sequer o conheciam. Sua capivara registra outros 17 delitos de natureza sexual, desde ato obsceno em público a estupros. Na mesma semana em que o caso de Avenida Paulista ganhou as manchetes, outras reportagens sobre fatos semelhantes foram publicadas. Uma delas, aqui na Cidade Olímpica, onde um sujeito também ejaculou numa passageira do BRT. A moça, cujo nome e imagem não foram revelados, tem “entre 30 e 40 anos”, é empregada doméstica e estava a caminho do trabalho.

Assim, de reportagem em reportagem, de telejornal em telejornal, a sociedade tomou conhecimento de algo que acontece todos os dias e noites nos ônibus, trens, barcas, metrôs e táxis país afora. Um juiz de São Paulo soltou o ejaculador Diego. Foi uma grita geral. Dois dias depois, ei-lo novamente em cana, depois de compartilhar, sem solicitação, o conteúdo de sua próstata, vesícula seminal e testículos com outra mulher dentro do ônibus. Desta vez, ele não só ejaculou como manteve a vítima sentada, à força, enquanto se preparava, digamos assim, para o ato. Diante da repercussão, o rapaz foi indiciado por estupro — o que não aconteceu da vez anterior porque o juiz José Eugenio do Amaral Souza Neto e o promotor Marcio Takeshi Nakada concordaram que o que houve não passou de mero constrangimento. As respectivas associações de classe concordaram com eles. Afinal, as mulheres que tenham mais cuidado com quem se encosta nelas.

Analistas disseram, do alto de suas torres de marfim, que toda a sociedade é culpada; que é urgente rever a legislação; que a impunidade estimula os abusos; que é preciso investir em educação; que Diego deve ser internado para tratamento psiquiátrico e que a Terra é azul. Cogita-se estabelecer espaços separados para homens e mulheres nos coletivos, como já acontece no transporte ferroviário. Já se fala, até, em ônibus específicos para eles e para elas, numa espécie de appartheid sexual. Como em outras ruidosas situações, a indignação coletiva há de passar em duas ou três semanas. A lei vai prevalecer — afinal, não há tipificação penal para manter na cadeia um sujeito que agride mulheres com sêmen — e outros ejaculadores continuarão ejaculando.

Há quem diga que as coisas são assim mesmo. Resta, portanto, limpar a pele, botar a roupa para lavar, absorver a humilhação e seguir até o ponto final. Todos nós sofremos com ejaculações não desejadas todos os dias. Há uma descarga de esperma abjeto em quase tudo, da ocupação indevida da vaga do deficiente físico ao cartão de crédito que nos chega sem ser solicitado; da libertação do Barata pelo Gilmar Mendes ao projeto de alienação da Floresta Amazônica. O imundo sêmen alheio escorre pelos nossos rostos quando o pivete nos toma o celular, o vizinho ouve música nas alturas madrugada adentro ou o plano de saúde recusa o atendimento justo na hora em que o tumor aparece.

Espermatozóides vis nos mancham a cada vez que um mendigo é espancado por playboys, a escola cancela aulas porque não há merenda ou o figurão arranja boquinha para o filho no órgão público. Normalmente, ejaculações são expelidas em momentos de prazer. Quebraram a Petrobras e o consumidor pagou o aumento no preço de gasolina. Dançaram de guardanapo na cabeça e o servidor ficou sem salário. Maquiaram a crise para ganhar eleição e a gente ficou sem emprego. Estancaram a sangria e os presos da Lava-Jato foram soltos. Compraram os deputados e o crime compensou.

O gozo de uns é o desespero de outros.


Carlos Fernandes tem 50 anos e é carioca. Jornalista, editor e redator, passou vinte anos na direção das revistas de informação cristã Vinde/Eclésia e Cristianismo Hoje. Hoje, trabalha no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e faz produção editorial e preparação de textos para diversas editoras.

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