Oh! Se fendesses os céus e descesses!

O tempo do desencanto inquieta pelo contraste entre meus anseios e a fria realidade

Foto: Dema21, Praia da Ferradura, Búzios, RJ

A estrutura é tão repetida que nos acostumamos. Seja na literatura ou nos filmes, nas encenações teatrais ou nas novelas televisivas.

No início das histórias, geralmente assistimos a uma volta de apresentações. Caracterizações dos personagens, estabelecimentos das normas gerais e exposição dos cenários. Na abertura dos enredos, os papéis são organizados e as sequências encaixadas.

O momento que se segue é justamente o do desencaixe. Cenas de tumultos, desencontros e perdas. Há quem considere que o sucesso da ficção depende muito da capacidade dos demiurgos em ambientar os sofrimentos. Mesmo nas comédias, uma boa dose de drama é apreciada.

A terceira sequência encaminha as narrativas para o final feliz. Personagens exaustos, mas vitoriosos; mocinhos cicatrizados, mas vingados; os amantes machucados, mas agora reconciliados. O final feliz é o que todos esperam, seja na literatura culta, nos contos infantis ou nas produções pop. Espera-se que as coisas se aquietem e finalmente voltem aos encaixes.

No entanto, a vida real não é tão esquemática assim. A espera pelo desfecho triunfal pode conduzir a frustrações e sofrimento. Mesmo as pessoas mais maduras às vezes cultivam a ideia de que basta a ocorrência de um fato novo para terminar de uma vez com a sensação do contingente. Ou, quem sabe, aprender o esquema da vida em que a ordem leva ao progresso. Vida encaixada com um final feliz duradouro é tudo que esperamos de uma boa história.

No livro de Isaías, não encontramos o típico final feliz. Assistimos ao profeta nas cenas finais clamando por uma teofania. O desejo manifesto é que Deus irrompa triunfantemente sobre tudo e mude o curso da história. Algo do tipo: “Desrespeite as leis naturais que criou e traga-nos um novo tempo”.

É notória a insatisfação do profeta com a cena atual e o pior é que as “cortinas” estão fechando. Em outros termos, o desfecho daquela história não era propriamente um final feliz.

Oh! Se fendesses os céus e descesses! Se os montes tremessem na tua presença […] Quando fizeste coisas terríveis, que não esperávamos, desceste, e os montes tremeram à tua presença. (Isaías 64.1, 3).

O anseio pela referência esplêndida e explícita. Somos acometidos da saudade do Deus da história. Parece-nos nesses momentos que o Deus dos nossos pais era, além de familiar, mais real. Lidamos com as sombras do passado e não conseguimos enxergar as manifestações de Deus hoje. Ficamos com o fino senso que os antigos eram mais seguros quanto aos sinais manifestos de Deus. Eles nos contaram coisas maravilhosas.

Os registros do passado, o olhar para trás, às vezes nos convencem de que estamos perdidos, sem condições de andar para frente.

“Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera.” (Isaías 64.4).

Nesta abordagem, estamos mais no campo da sensação do que da interpretação formal. Parece-me que depois de tantos esforços, o compromisso da vida inteira, somos acometidos por um tipo de certeza de impotência.

O tempo do desencanto inquieta pelo contraste entre meus anseios e a fria realidade. Neste sentido, diferentemente de desenlaces triunfais, finais épicos, o que temos é um profeta perplexo. Não digo frustrado, apenas perplexo.

Com o olhar assumidamente vago, ele ora. Readquirir a expectativa que Isaías traduziu tão bem:

“Oh! Se fendesses os céus e descesses!”

Por hoje é o que conseguimos orar.


Do meu livro Profecias Subversivas. Na gaveta esperando para ser publicado.


Valdemar Figueredo (Dema). Professor, Escritor e Diretor/Editor do Instituto Mosaico. Doutor em Ciência Política (IUPERJ) e doutorando em Teologia (PUC-RJ, 2017)

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