Pelo buraco da fechadura

Me refiro à filosofia, arte natural das crianças, dos palhaços e dos subversivos

Fotografia: Sol Roccocuchi. Caracas, Venezuela. Behance

Meu primeiro texto no Mosaico. Minha grande área é transdisciplinariedade. Ou seja, qualquer coisa que seja transversal às ciências humanas.

Qual-quer coi-sa!

Tão mais fácil quando nos dizem o que fazer.

Nessa saga sartreana, me vi diante da liberdade e, com minha melancolia novelística mexicana, titubiei.

“É só um texto cara”, dizia meu alter ego.

Acostumado às gaiolas acadêmicas, logo quis iniciá-lo com “nossos pressupostos epistemológicos”, “com base” ou “uma vez analisadas”.

Daí a voz interna disse: “Não André, isso não vai pro lattes!”.

Ufa, afinal, o coração tem razões que o cnpq desconhece.

Vou escrever do coração então!

Já sei, vou falar da loucura política brasileira atual. Mas já há o facebook e as “fake news” para isso. Além do mais, meu texto soaria “textão”. Logo imaginei os memes nos comentários. Aliás, o “Chapolin Sincero” se tornou o superego de nossos tempos, o grande manual moral do século 21.

Desisti.

Depois pensei em falar da violência carioca pós-copa-jogos-prisão-do-cabral-e-do-eyke-e-fim-das-upps, que voltou a nos assolar com tiroteios entre uma novela e outra, nos levando para aquela antiga vontade de ficar apenas “numa poltrona num dia de domingo”.

Mas escrever sobre medo logo no primeiro texto? Já não basta o Trump em nossa vida com seus verborrágicos “billions and billions and billions” gastos em segurança contra o terror e os apresentadores matinais?

Depois cogitei tratar da minha igreja evangélica brasileira, essa grande massa de manobra nas mãos dos picaretas da (má) fé com seus projetos de poder.

Mas ia cair na generalização, que tenho tentado fugir ultimamente, e meus valentes irmãos da fé humanizada, do amor piedoso e da luta pela sinalização do Reino de justiça, misericórdia, paz e amor sofreriam pela minha desmedida. Dexaquéto.

Foi quando pensei em tratar das redes sociais, com seus usos intolerantes, desrespeitosos e odiosos. Mas como cansei desse viés beligerante presente nelas, já que era constantemente taxado de radical ao tentar amistosamente o diálogo com alguém que pensa diferente, decidi sair desse labor sisifiano.

Meu uso nas redes sociais hoje se concentra mais naquela área das ciências humanas chamada “Zoera”, uma vez que me converti à santa memelogia, esses bobos da corte que com os seus ritos de memes aliviam nossa existência e sofrência, e esmagam toda arrogância pretensiosa, nos lembrando que se a gente não “rir um do outro meu bem, então o que resta é chorar”.

Me restou, então, pensar justamente no processo criativo no qual estava imerso.

Pensando no pensamento, me vi diante daquilo que mais gosto de fazer e do qual já não consigo mais fugir. Me refiro à filosofia, arte natural das crianças, dos palhaços e dos subversivos.

E pra mim, filosofia, mais do que a história do pensamento e toda aquela celeuma chatológica e especulativzzzZZZzz, é a arte do olhar diferente, crítico, questionador.

Filosofia é poder aguçar novos olhares, novas perspectivas, e assim, possibilitar novos mundos e formas. E novamente tornar essas novas formas sujeitas à novos olhares e novas perspectivas.

Num processo infindo.

Como num rio cujas águas são sempre novas.

Constante.

Talvez inútil. O que é o útil?

Não sei, há tempos já o deixei de perseguir.

Fica a pergunta.

A fonte de toda filosofia.

“O que é?” é res-posta, coisa posta, forma de vida, autônoma, livre e criativa.

Acho que é isso que farei aqui nesse espaço quinzenal: te fazer olhar diferente.

Pretendo escrever textos provocadores, instigantes e saborosos, que te façam sentir prazer no espanto, na mirada nova, no olhar pelo buraco da fechadura, e, excitado pelo lampejo de mistério, contemple o mosaico belo da vida. Do saber ao sabor. Um salve ao Rubem!

Os temas transversais aqui tratados serão aletórios e interdisciplinares. Para além de falar sobre temas existenciais fundamentais e ontológicos, quero tratar, com a mesma seriedade que uma criança brinca, de arte, futebol, poesia, infância, palhaços, inutilidades, preguiças e brincadeiras.

Nesse tempo em que nunca temos tempo, quero te fazer perder ainda mais o seu tempo.

E como numa brincadeira de criança, onde o tempo para e se é feliz sem saber, quero te convidar a entrar nessa roda inútil.

Dê um tempo no tempo.

Para terminar, cito o filósofo milenar Heráclito para tornar esse texto mais erudito. Ele dizia: “Tempo é criança jogando e brincando. Reinado de criança”. Me dê o seu tempo e juntos vamos brincar. Ah, e sem tempo e nem hora para acabar. Agora é a sua vez.


André Decotelli é filósofo, doutorando em filosofia pela PUC-RIO. É também professor e pastor batista, trabalhando na área de crianças, esses modelos subversivos do Reino. Já fez de tudo um pouco, passando da informática à capoeira, da palhaçaria à ginástica olímpica. Já iniciou seis cursos universitários, tentou aprender seis instrumentos musicais e ainda não superou seu medo de lagartixa. Atualmente se interessa pela arte de fritar ovos sem endurecer a gema e na sommelierística do açaí carioca. É botafoguense roxo, roxo não, preto e branco!

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