Por que eu não me mato?

Suicídio e o peso de existir

Foto: Yucel Basoglu

Dizem que o que nos torna humanos e distintos dos demais animais é a consciência da própria morte, logo, da nossa existência. Os elefantes, em sua jornada impertinente de volta ao lugar de origem quando pressentem que vão morrer, enfraquecem um pouco esta teoria, mas vamos conceder a ela um peso retórico, que seja. Se assim for, deve ser bom ser uma borboleta, uma minhoca ou um ornitorrinco, eles são inocentes. Eles não sabem, e por não saberem não doem. Ou esta é a minha forma, também retórica, de dizer que existir é doer-se.

Uma forma pessimista de encarar tudo, vá lá, aceito a acusação. Mas quem duvidará de mim quando repito Renato Russo em sua fórmula pop-budista:

“Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor?”

A dor vem do desejo de perdurar enquanto indivíduo fulano de tal, com suas idiossincrasias e singularidades, pois esse lance de ser pó de estrelas é muito místico e tal, mas, salvo exceções, não nos satisfaz. Mas, a não ser em situações extremas em que a dramática decisão de sair do palco da vida aparece como terrível opção, queremos viver. Por quê?

Camus, em “O Mito de Sísifo”, afirma que a única pergunta verdadeiramente importante é: por que eu não me mato? Já me fiz esta pergunta inúmeras vezes e agora faço ao meu, improvável, leitor. Por que não me mato? Ao contrário do que possa parecer, Camus não estava fazendo nenhuma apologia ao suicídio, pelo contrário. Por livros como “Núpcias” e “O Exílio e O Reino” eu estou convicta que ele amava a vida, amava o sol queimando nossa pele em um dia de verão, amava o toque da pele de quem desejamos.

É o suicida, anônimo ou não, que nos esfrega na cara sua convicção, e é a nosso olhar assustado em frente do espelho que devemos responder a este porquê. Talvez queiramos tergiversar, ou em vernáculo mais feijão com arroz, driblar a pergunta de Camus com a afirmação de que “a vida é um dom”, e por isso não temos o direito de devolvê-la. Não sei Camus, mas eu respondo que ela é, então, um presente de grego, uma armadilha, na medida em que não dá pra ir na loja trocar quando ele não “serve” em nós.

Na verdade Camus, igual aos elefantes, é muito impertinente em jogar na nossa cara esta pergunta absurda. Pois é isto que ela é, absurda, pois absurdo é o mundo (de novo Camus), absurda é nossa procura por um sentido cósmico para tudo, porque não o há. É nisso que acredito, como o nosso filósofo francês.

Tenho um amigo que sempre usa uma palavrinha mágica quando vai falar sobre o sentido da vida: emprestar. Ele é um teólogo, e esses gostam de fomentar e/ou sustentar a vida com narrativas que “emprestem-nos” sentido. É notável a diferença, o emprestado pode ser pedido de volta, o sentido pode esmorecer e finar-se. Mas aí toma-se emprestado de novo outro sentido: fé, família, amores, dinheiro, trabalho….

O desconforto que o suicida nos traz é o de nos forçar a fazer-nos essa maldita pergunta: por que não me mato? A resposta é pessoal e intransferível. Exige honestidade total. Cada um que se vire com a sua, eu estou, há anos, a entabular a minha.


Cleide Oliveira

Graduada em Letras Português e Literaturas em Língua Portuguesa pela UERJ, Mestra em Estudos de Literatura e Doutora em Estudos de Literatura pela PUC-RJ. Desenvolveu pesquisa de pós-doutoramento na PUC-RJ e na FAJE-BH. É autora do livro “O Poético, O Erótico, O Sagrado”.

São textos de fôlego, resultado de pesquisa aplicada à escrita de fronteira: filosofia (Bataille, Vilem Flusser, Heidegger); antropologia (Pierre Bourdie); história dos afetos (Georges Duby, Jacques Le Go, Phillipe Airés, Denis de Rougemont); estudos de religião (Mircea Eliade); teoria literária (Octávio Paz); ficção (Clarice Lispector, Marina Colassanti, novelas de cavalaria) e poesia (Alberto Caieiro, Manoel de Barros, João da cruz, lírica galego-portuguesa).
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