Preces prosaicas

Espiritualidade simples com música, prosa e verso

Foto: Saymon Luna. Chapada do Araripe, Cariri, Ceará, Brasil. Flickr

A oração não deveria ser esquemática a ponto de transformar-se em peça de antiquário: exposta para ser vista. Linguagem refinada, como se Deus não resistisse a uma boa lábia.

Fujamos dos métodos impessoais de tagarelas que pressupõem que Deus é um idiota emotivo.

Descubro na Bíblia orações pulsantes de gente contraditória como eu. Fica mais fácil orar lendo a Bíblia do que ouvindo os especialistas. Sem embargo, expostos, falas que revelam imprecisões, contradições, ignorância, ambiguidades…

O mais embaraçoso não é constatar as nossas emoções fora das pautas, mas perceber que Deus se enternece e participa atento dessas conversas truncadas. Repercuto o texto bíblico sem qualquer pretensão de dizer o que significa ou o que preceitua. O exercício a que me proponho tem mais a ver com o sentir do que com o entender. A propósito, não compreendo a oração. Como explicar que a pessoa finita fala do seu lugar com o Deus inefável?

Quando eu era criança, aprendi que orar é o que se diz a Deus. Mas hoje, grisalho, tenho certeza de que orar é o que se sente com Deus. A verdadeira oração é indizível. Abrimos a boca para falar senão explodimos, adoecemos, enlouquecemos…

É isso, a melhor forma de representar a oração não são as vírgulas, pontos finais, sinais de exclamação ou de interrogação, mas são as reticências…

Ah, que inveja dos desenhistas, que com seus traços chamam por Deus! Artistas sem papas na língua, sem esquadros, sem réguas, sem definições cabais. Livres, sabem que seus quadros são parcas noções de algo que se sente, mas, porque indizível, evitam a palavra Deus. O que Dele ouvimos, não conseguimos falar para outros.

Oração é deslumbramento que se traduz na simplicidade.

Oração é espanto face às condições humanas e às realidades divinas.

Confundo orações bíblicas com canto popular, orações de gente próxima com suspiro de poetas, minhas orações com os meus sentimentos. São fragmentos de texturas e colorações diversas.

A beleza nem sempre está à procura da amálgama da coerência.

A ideia de aprontar-se para orar é compreensível. Esforços para agradar o Excelsior Deus que vive escondido atrás das nuvens. Quando bem-feitas, as preces, supomos, Deus desce e fica mais perto, atrás dos montes. Bastariam então a insistência e os encantamentos apropriados para trazê-lo excepcionalmente para os templos e catedrais.

Relendo as orações bíblicas, vendo os poetas suspirarem seja por encantamento ou indignação, ouvindo os acordes dos músicos em diferentes alturas e lembrando das experiências dos amigos, concluo: Deus ama a espontaneidade e suporta o cerimonialismo.

Falar com Deus é muito melhor do que aventurar-se em definições precisas de oração.

Suspeito que o místico (experiência) é mais feliz do que o religioso (fórmulas).


Valdemar Figueredo (Dema). Professor, Escritor e Diretor/Editor do Instituto Mosaico. Doutor em Ciência Política (IUPERJ) e doutorando em Teologia (PUC-RJ, 2017)

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