Que é acreditar na fé?

Não é o ateu necessariamente um não-crente, mas todo crente que se agarra às certezas de fato como garantias da fé é necessariamente um ateu

Fotografia: Nathan With. Novato, CA, USA. Behance

Para meu amigo Carlinhos

A prova da existência de Deus não é uma questão fundamental para o homem de fé, pois quando surge para alguém a importância da prova não há mais fé nem mesmo prova.

Para o homem de fé, a possibilidade da “não existência” talvez seja até um bem para o crer, pois lhe doa, sem qualquer fundamento, uma prova de outra natureza que nasce do próprio salto da fé. Quem pergunta pela prova da existência de Deus para poder crer já está fora da experiência desse salto. Sim, apenas um salto — porque na ambiência sagrada entra-se sempre de repente, abruptamente. Quando vamos ver, já estamos dentro dela, de graça. Na dinâmica do salto, a “prova da existência” é apenas uma filigrana teológica, mas o suficiente para obstaculizar a imediata provação do crer que só pode ser explicado pelo próprio crer. Do interior da provação, a pergunta pela prova é uma questão que não faz mais qualquer sentido. A pergunta pela prova é a questão típica daquele que não fez a provação de uma prova de outra qualidade, que em sendo feita jamais se deixa trespassar pela suspeição em torno da categoria da existência.

Quem está dentro da provação, dentro da franca experiência sagrada, não pode mais perguntar sobre Deus, não pode mais pensar em Deus, não pode mais querer a Deus. Mas esse “não pode mais”, entretanto, não significa uma mera coerência interna que condiz com o crer, mas somente a sacratíssima espontânea condição de quem do fundo de sua inocência nem sabe que crê.

Mestre Eckhart, comentando as preocupações que permeiam a consciência dos crentes, faz a seguinte recomendação: “O homem não deve se contentar com um Deus pensado, pois quando o pensamento passa, passa também Deus”. É precisamente no instante em que o pensamento não pode mais atuar a serviço da fé, quando não há mais nada que possa dar sustentação e estrutura para o crer, que a fé torna-se possível e o sagrado acontece — a prova da existência não se apresenta mais enquanto “questão” mas ao sabor da inocência de uma surpreendente alegria.

A graça dessa alegria se guarda silente no corpo de quem a sente. A fé é uma experiência entusiástica do corpo. Tomado pela fé, o corpo não pode mais pensar, só pode dançar e cantar sob a atmosfera da mística presença. Se houver pensamento na fé, i.e, a partir da fé, a dança e o canto serão seus únicos paradigmas. O pensar será então como o dançar e o cantar: o devir e o entoar de quem está divinamente inspirado dentro do movimento e da toada da vida. Por essa razão, o erudito discurso teológico, o conhecimento doutrinário, o pertencimento a uma comunidade religiosa, todas as campanhas estabelecidas sob a azáfama das missões religiosas podem apenas indicar o rigor mortis de um corpo exangue que se agarra à excitação litúrgica como a um desfibrilador espiritual.

Não é o ateu necessariamente um não-crente, mas todo crente que se agarra às certezas de fato como garantias da fé é necessariamente um ateu. Martin Buber viu como poucos o fenômeno de uma estranha fé que suplanta os ditames das mediações factuais. Em sua célebre obra intitulada Eu e Tu, ele acenou para o mistério que atravessa a experiência religiosa e não se deixa reduzir às categorias assimiladas pelo senso comum religioso. Discernindo o coração daquele que experimenta a religião eivada por maneirismos, comportamentos e distinções esteriotipadas, ele diz: “Tal homem é o homem sem Deus, e não o ‘ateu’ que, do fundo da noite e da nostalgia da janela de seu quarto, invoca o inominado”. Para o primeiro, o mistério é Deus; para o segundo, Deus é — o mistério.


Eduardo Campos. Doutor em Filosofia (UFRJ), Mestre em Filosofia (UFRJ), Especialista em Filosofia Moderna e Contemporânea (UERJ), Licenciado em Filosofia (UFRJ). Atua como pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicopatologia e Subjetividade (IPUB/UFRJ). Professor do Instituto de Psicologia Fenomenologico-Existencial (IFEN).

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Redação — Instituto Mosaico

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