Feminismo na Igreja é realmente necessário?

Cerca de 40% das mulheres atendidas em uma das casas de apoio a mulheres em situação de violência em São Paulo são evangélicas

Feminismo dentro do cristianismo é realmente necessário? Se as igrejas ou comunidades cristãs de formatos diversos refletissem os passos de Jesus em sua completude, acredito que não precisaríamos de movimentos que buscam a igualdade entre as pessoas. Apenas seguir o exemplo de Jesus já faria dos cristãos pessoas que buscam a equidade plena em serviço e amor.

No entanto, estamos dentro de sociedades que têm problemas culturais e estruturais que inviabilizam o trato igual a todos. Se observarmos com calma, em quase todos os âmbitos há alguma forma de hierarquização. Em especial, o desenvolvimento histórico do cristianismo o tornou apoiador e reprodutor do patriarcado. Isso se reflete em muitas formas de violência física e simbólica, levando à inferiorização de mulheres e outras minorias, dentro dos meios cristãos.

Os exemplos mais claros são a pequena ocupação de cargos eclesiais por mulheres (pastoras, diaconisas, presbíteras) e os discursos de submissão feminina, permanência em espaços domésticos, maternidade e casamento obrigatórios. Decorrência grave dessa inferiorização é a violência contra a mulher, especialmente a violência doméstica. Por exemplo, a pesquisa de mestrado da Drª. Valéria Cristina Vilhena, fundadora do movimento Evangélicas pela Igualdade de Gênero, revela que cerca de 40% das mulheres atendidas em uma das casas de apoio a mulheres em situação de violência em São Paulo são evangélicas.

Por perceber a diferença persistente entre homens e mulheres na sociedade em geral e dentro das vertentes cristãs, é que surge a teologia feminista.

A vida das mulheres dentro da igreja, suas experiências sociais e espirituais em conjunto com o estudo teológico e das teorias feministas levaram algumas mulheres a elaborar um novo referencial de interpretação e pesquisa bíblica e teológica. Seu objetivo era rever as tradições e interpretações bíblico-teológicas para provocar um novo modelo relacional que fosse conectado com a vida das mulheres como seres plenos. Frente às suas pesquisas e com a evolução dos estudos interdisciplinares, as teóricas e teóricos da teologia feminista encontraram alguns problemas.

O primeiro era uma escassez de fontes de pesquisa sobre a vida e papéis das mulheres. Outro problema foi que o que sobreviveu dos vários movimentos cristãos e judaicos se refere ao judaísmo rabínico ou ao cristianismo exterior à Palestina e esse recorte foi aceito como a norma. Além disso, as tradições e a história cristãs primitivas foram formadas em ambientes culturais patriarcais que moldavam negativamente a visão sobre as mulheres. Percebemos, acima, que essas construções se propagaram em um modelo de relação injusto para as mulheres até hoje.

Este texto trata da teologia feminista pelo seu potencial agrupador e transformador, mas também porque muitas mulheres (e também homens) que se engajam na pesquisa da teologia feminista são também líderes comunitárias, pastoras ou estão envolvidas com os movimentos populares, pois a base da teologia feminista é a vida, o conhecimento e os corpos de pessoas reais. Seus trabalhos e vivências trazem mudanças e crescimento de justiça. Para ver um excelente panorama da teologia feminista no Brasil, veja o texto do blog de Angélica Tostes.

As teólogas e teólogos feministas inseriram nos estudos sobre Bíblia, religião e teologia algumas perguntas que foram capazes de elaborar melhor a diferença que existiu, e persiste ainda, entre homens e mulheres no exercício de poder dentro das suas vivências. São perguntas típicas da teologia feminista para os textos bíblicos e a teologia:

Como se constituem as relações de gênero?

Como se dá o fluxo de poder estabelecido no texto?

Como se dá a partilha de conhecimentos?

Quais os papéis de homens, mulheres, crianças e idosos?

Como está instituída ou como é questionada a questão da dominação masculina?

Qual a dinâmica entre os corpos?

Quais são os sentimentos expressos?

Responder essas perguntas exige alguns passos primordiais, dar historicidade, localizando o objeto dos estudos temporalmente, geograficamente e culturalmente. É necessário conhecer os discursos que baseiam textos e ideias e quais são as novidades que eles trazem. Nenhum desses passos e perguntas é exclusividade de teóricos. Eles podem ser adotados por nós para avaliar nossas relações cotidianas de forma a transformar a produção e partilha do conhecimento e as relações que produzimos.


Carolina Bezerra de Souza é cristã, brasiliense, com metade do coração em Recife e um pé em Curitiba. Doutora e mestra em Ciências da Religião, bacharel em teologia e engenheira eletricista. Trabalha as temáticas de gênero, textos sagrados, movimentos populares e espiritualidade.

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