Semba e samba políticas!
Comparações políticas entre Brasil e Angola

“Não ao Brasil do ódio e da extrema direita! ”
Entre o semba de Angola e o samba do Brasil, no reino da política, o compasso não é seguramente o do kuduro, nem o do funk. Nada têm a ver com o interesse de massas. Levam-nos, ao invés, para outras observações. Por exemplo, o ódio contra as ideologias de massas, contra o triunfo da política social da inclusão nas sociedades de elite. Nos dois casos, é uma preocupação válida e se justifica.
Cá em Angola, nos debatemos com o estranho evento político do triunfo da classe política como uma elite económica. Só por isto, provavelmente só por isto, a democracia não está a vingar com facilidade e a corrupção passou a ser inofensiva. É quase proibido falarmos de combate à corrupção aqui em Angola, porque foi a corrupção que levou à única divisão da sociedade em classes que nós hoje conhecemos.
A única elite existente aqui é a política, porque a política foi a única via de acesso a elite económica. Ainda é. Angola, entre os países de expressão portuguesa na África, é talvez o país em que a divisão da sociedade com base na cultura material erigiu uma cultura política de aversão ao politicamente razoável (não necessariamente correcto). Não temos ainda uma verdadeira elite intelectual, mas assistimos também desenfreado interesse de ocupação desse espaço através de um mecanismo que aqui convencionamos chamar de “bajulação política”. Está claro ao espírito de muitos leitores de livros aqui que a única forma de assomar esse terceiro nível de elitismo é através do louvor e defesa encantada da classe política triunfante e seus feitos. Não importa se errados ou evidentemente equivocados. Max Weber tinha então razão, se é que vocês me entendem.
Como vêm, tenho cá minhas razões para desconfiar da bela maluquice das sociedades políticas sob coqueluche social comandada por uma elite, ou por elites. Elas geralmente sabem o que fazem, e sabem bem fazer o que pretendam quando o Diabo lhes ocupa a espinha mental. Tenho me perguntado porque um país lindo, rico e tranquilo como Angola não consegue promover união programática, tolerância político-partidária e consenso patriótico, se apenas preciso disto para passar de uma republiqueta de bananas para uma terra próspera, de progresso, boa para se viver! E aqui é que meu pensamento pula para outro gigante da minha paixão patriótica, o Brasil do samba político.
Tenho acompanhado de forma agora um pouco desinteressada o curso dos eventos políticos e humanos associados, no Brasil, e fico cada vez mais convencido de que o evidente ódio que se instalou e brota de linhas e mentes respeitáveis da sociedade, das igrejas, de associações e famílias, com um poder de contaminação tão espetacular (aparentemente fertilizado por ignorância e desonestidade intelectual), só pode ter como saída a sedução dos apelos de extrema-direita. Os políticos e a política transformando o DNA do país até aqui o mais bem-quisto do mundo. A pretexto de erradicar sua centenária cultura de corrupção na política com golpes fatais do machado Jurídico, duas elites (a política e a económica, obviamente) se uniram para finalmente realizar, consciente para muitos e inconscientemente para poucos, um projeto quase diabólico de controlar o poder económico pelo caminho mais perigoso: a vitória do ódio estimulado contra legendas e partidos de massas associativas avessas ao capitalismo neoliberal. O lulismo e o trabalhismo como nó mais representativo das massas na política é aqui inevitável referência.
O sucesso já não apenas político do Lulismo, ainda que momentaneamente obliterado pelos soluços gerenciais da cartilha chamada Dilma Rousseff, foi obviamente escolhido com muito sucesso como o desaguadouro de uma cultura triunfante de ódio político de massas. Voltaram a ensinar ao Brasil o ódio contra o “socialismo” de massas, que agora se massifica. Pelas mesmas razões que levaram a velha sociedade nascida das capitanias hereditárias a proclamar, com sucesso, o ódio religioso e conservador contra fantasmas comunistas e sargentismo atrevido. O sucesso da “restauração” se confirma e consolida todo o dia nas imagens e linhas das redes sociais. Nesta arena democrática, do encontro das liberdades de expressão de “associação”, assiste-se o ridículo e carnavalesco destilar de convicções de ódio político que silenciosamente segue antipatizando, separando e opondo velhos amigos, mestres e discípulos, irmãos e colegas, provavelmente para nunca mais se reconciliarem. Pelo menos no afeto e na admiração.
A energia daquele ódio e seu torpor mental promove o asco, o descaso, o desinteresse pelo que é humano, é razoável, é verdadeiro. Por exemplo, já não são maiores em número e nível, no reino de Brasília, os fatos que antes levavam à consternação das panelas e passeatas da classe média? Não foram tantos os equívocos e atropelos no reino de Curitiba que surpreenderam as mentes mais despertas e ativas da nação? Que efeitos sociopolíticos de expressão despertaram tais ocorrências? Resposta: mais ódio político contra o lulismo (nada a ver com o personagem singular do Lula), uma tendência então extremamente perigosa.
Num ambiente tão turvo e surpreendente como esse, os brasileiros assistem incrédulos, e mesmo assim já estáticos, a ascensão de uma nova cultura social que levará inevitavelmente, se Deus não for misericordioso com o impávido colosso, ao nacionalismo da extrema direta e, consequentemente, ao conflito de classes na sua forma mais marxista possível. Afinal, assim como a maioria dos países do terceiro mundo, o Brasil dificilmente suportaria no seu tecido social uma coexistência pacífica (ou mesmo controlada) de uma vitoriosa ideologia de extrema-direita com as desigualdades sociais nele entranhadas. Fica mais fácil desconfiar-se de uma jornada que levaria de volta para a política como resistência e revolução, tal como é nota comum nas Áfricas e Américas tuteladas pelos interesses imperialistas do ocidente. Não ao Brasil do ódio e da extrema direita.

Zakeu A. Zengo. Doutor em Antropologia Social do Desenvolvimento (Brunel Univ, UK), Doutor em Filosofia Política (UERJ, Brasil). Professor de Estudos Filosofia Política, Filosofia do Direito e Filosofia da Educação (IMETRO, Angola), de Sociologia da Religião e História do Pensamento Cristão (Instituto Kayrós, Angola), e de Estudos Africanos (Mestrado da UAN, Angola). Trabalha com ministérios sociais e como gestor de IES em Angola.

