Sobre a necessidade de engajamento político e social no Brasil

Como sair das redes e ocupar os espaços nas ruas e em ações que envolvam trocas de experiências vivenciais e com efetiva contribuição ao próximo?

Fotografia: SILVA. Fábrica de ideias. São Paulo, Brasil. Behance

É cada vez mais recorrente ver nas redes sociais e nas rodas de conversa a seguinte indagação: “O que falta para o povo se mobilizar”? “Não param de nos atacar, roubar, tirar direitos…”. Afinal, porque diante dos graves problemas causados pela conjuntura de crise político-econômica a população não reage?

Ao invés disso vemos, de um lado, o país crescentemente polarizado e com vários sinais de embrutecimento, e, de outro, uma população com crescente desesperança e sem confiança nas instituições políticas. E, diante de um quadro dramático, o que se vê é uma paralisia e um entorpecimento da maioria da população, incapaz de reagir. Salvo exceções de vozes vociferantes nas redes sociais, ou alguns movimentos sociais com engajamento político-partidário, há muito pouca reação visível que seja capaz de incomodar o establishment que comanda o país.

Sabemos que historicamente o Brasil é um país muito desigual (em termos de renda, patrimônio, acesso à educação e saúde, etc.) e com muita pobreza. Trata-se de problema estrutural causado por raízes históricas, políticas e econômicas. Além disso, vivemos num país em que em seus grandes centros urbanos há uma violência tão endêmica que mais parece que vivemos em ambiente de guerra. Essa é uma dimensão estrutural que só será enfrentada quando o país lograr êxito na concepção de um projeto de nação, tal como os países mais prósperos e ricos conseguiram pactuar no século XIX e no inicio do século XX.

Mas há uma dimensão conjuntural da crise, que tem a ver com o desalento da maioria esmagadora da população na política partidária tradicional. Há uma forte crise de representatividade política e os caminhos de saída da crise via política tradicional não parecem suficientes nem eficazes. Some-se a isso o fato de que o Brasil se tornou um país profundamente polarizado em termos políticos (problema acentuado pelos anos recentes).

As dimensões estrutural e conjuntural têm um eixo comum: os problemas ligados à política e à economia que, notadamente têm a ver com as elites que se colocam no poder desde sempre no país. Nesses tempos recentes, a Operação Lava Jato tem se apresentado como um contraponto às relações público-privadas que historicamente governavam o país com resultados não lineares e imprevisíveis, inclusive levando à condenação e à prisão parcela de elite poderosa do país.

O caminho para a saída da crise e para soluções efetivas para os problemas do país passa pela melhora e pelo fortalecimento das instituições. Em instigante livro, intitulado “Por que as nações fracassam”, Daron Acemoglu e James Robinson sugerem que a criação de um círculo virtuoso para o país passa pela criação de instituições que estimulam a prosperidade criam um esquema de retroalimentação positiva que anula as tentativas das elites solapá-las.

Evidente que tal processo passa por melhora das instituições políticas e democráticas. Como, então, abandonar a política e a democracia? Não é esse o caso que se tem apresentado no Brasil recente?

Diante de todos os problemas e desafios o que vemos são ações e práticas em prol da participação política e da inclusão social como apenas pontuais e restritos a um pequeno grupo de ativistas.

O que fazer então? Quais os caminhos e possibilidades para saídas? Como trabalhar em prol de conciliação de todos os segmentos da sociedade? Como sair das redes e ocupar os espaços nas ruas e em ações que envolvam trocas de experiências vivenciais e com efetiva contribuição ao próximo?

São perguntas de difícil resposta que nós certamente não temos e mesmo os especialistas apontam, no máximo, para possíveis caminhos alternativos. No entanto tais perguntas suscitam o debate de ideias e, sobretudo, a interação que permita uma conscientização mais ampla de todos os problemas listados.

Se, de fato, são as instituições de um país que definem sua trajetória de sucesso ou fracasso, cabe a todos nós trabalharmos pelo fortalecimento das mesmas, o que significa uma imperiosa necessidade de engajamento político-social para que o status quo seja alterado. A série de artigos que se seguirá terá por objetivo precípuo o tratamento dos inúmeros temas aqui já listados.


João Felippe Cury Marinho Mathias. Economista (UFRJ), mestre em economia (UNICAMP) e doutor em Economia (UFRJ). É professor associado do Instituto de Economia da UFRJ. Possui pesquisas e interesse em Sustentabilidade, Desenvolvimento Econômico, Contas Nacionais e Distribuição e Desigualdade de Renda.

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