Um grito por justiça

“Quero que haja tanta justiça como as águas de uma enchente. ” (Amós 5.24)

Fotografia: Jorge de Sousa. Braga, Portugal. Behance

De acordo com o Dicionário de Ciências Sociais da FGV, o termo justiça tem sido empregado principalmente em dois sentidos: a) “dar a cada um o que lhe é devido”; b) “reparar o dano, indenizando a vítima ou punindo o infrator. Segundo o mesmo dicionário, seria a justiça a regular as chamadas relações sociais. Logo, qualquer relação que se estabeleça sem justiça, iminentemente, e em um processo histórico fica desregulada e descamba para o desajuste.

Basta um olhar simples para o mundo em que vivemos e perceberemos a falta de ajuste, a segregação espacial, social, econômica etc. A violência embebeda cada um de nós tornando-nos reféns de uma realidade doentia e esquizofrênica por falta de justiça. Como seria bom que fosse realidade e que todos tivéssemos acesso ao que disse Carmem Lúcia, Presidente do STF em seu discurso na sessão de encerramento do semestre do Judiciário em 30/06/2017: “O clamor por justiça que hoje se ouve em todos os cantos do país não será ignorado em qualquer decisão desta Casa”. Utópica não?! Bom seria que assim fosse. Que assim seja senhora Ministra! Mas por hora, nesta controversa realidade…

Existe um grito por justiça na voz dos profetas do Velho Testamento, como exemplo Isaías nos diz: “O efeito da justiça será paz, e o fruto da justiça, repouso e segurança, para sempre.” Para os profetas, a sociedade que se estabelece à partir das desigualdades é violenta, já a que se estabelece através da justiça tem repouso, segurança e paz. Para os profetas, o termo que expressa a ideia de justiça é TSEDEQ, este refere-se a “justiça” como ordem criada, ordenada por justas relações. O que tinham em mente é o mundo que Deus criou e a sua perfeição. Resgatar esse mundo onde não existiam perversidades, desigualdades, classes, diferenças sociais é a expressão da mais pura justiça. Eis o caminho para a solução da violência nas nossas cidades.

Existe um grito por justiça na voz do poeta, ao cantar PEACE, Jimmy Clyff denuncia a desigualdade dizendo: “Como vai haver paz quando não há justiça? Alguém está levando mais do que sua parte das bondades desta terra e isso não é justo. Tão poucas pessoas tendo mais do que precisam enquanto há tantas bocas famintas no mundo para alimentar… Como vai haver paz se não há justiça? Alguém está levando minha parte e eles simplesmente não dão a mínima. ” Esse grito ressoa aos ouvidos dos que sensíveis à poesia são desafiados a pensar nos que são violentados e esmagados pelo sistema perverso. Ainda que os profetas não falem contundentemente aos seus ouvidos, que os convençam os poetas. Que os convencendo, se ouça a voz dos oprimidos.

Existe um grito por justiça na voz de Jesus de Nazaré que desafia seus seguidores a “buscarem seu Reino e sua justiça” (Mateus 6.33). Essa “justiça do Reino” é um resgate da ideia acima, dos profetas. Tanto os profetas como Jesus estão falando daquilo que, segundo os exegetas, pode ser traduzido por “dar aos necessitados, ter um ato de caridade. Esmola, ajuda aos pobres”. Jesus clama por justiça na voz dos que têm sede, fome, imigrantes, nús, presos, doentes em Mateus 25.34–40. Restabelecer o mundo segundo o padrão do criador é a justiça que os que seguem a Jesus devem buscar.

Logo, existe um grito por justiça em cada um que cerceado dos seus direitos, violentado pelo outro, excluído economicamente, socialmente, espacialmente e exposto a uma situação de vulnerabilidade, vivem em condições de desigualdade. Existe um grito por justiça em cada grupo excluído, independente de suas opções de gênero, politica, sua nacionalidade, seus vícios, suas escolhas etc. Cada um que sofre é Jesus clamando e dizendo: Me ajude! (veja Mateus 25.34–40. É Jesus quem clama) Na verdade, ou temos Justiça para todos ou para ninguém, assim como parafraseia o poeta no sentido da falta de justiça para alguns: “Só que o vulcão explodiu, entrou em erupção e a lava que escorreu foi derreter sua mansão”.

Na Cidade do Rio de janeiro, a “Favela” grita por justiça! Bem, esta é uma deixa para o próximo texto.


Jairo Ricardo de Souza é teólogo, sociólogo, professor, pastor batista, apaixonado pela fotografia. Nascido no interior de São Paulo, em Mogi das Cruzes, carioca de coração desde os seus cinco anos de idade. Criado na Favela do Muquiço.

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