Bom Dia Punpun

Punpun sucede ao falhar.


Agora que a tradução "oficial" está disponível, mais pessoas lerão o final e podemos começar a discutir.

Eu não gostei do final de Punpun.

Fiquei decepcionado, deprimido, irritado.
Ele não deu as respostas que esperávamos, não foi nada como esperávamos, muita coisa pareceu não fazer sentido e não se amarrar. Talvez isso faça parte da ideia, muita coisa era sem sentido, os personagens davam uma importância que não existia e nós leitores também. Aqui e ali momentos onde algo a mais parecia acontecer, porém essa era ora impressão dos personagens ora impressão nossa, não dá para dizer se aconteceu ou não, e para quem ou onde aconteceu, além de ser ou não um evento alheio aos acontecimentos daqueles personagens. Assim como tantos eventos banais ganham uma importância especial na nossa vida, também muitos dos acontecimentos da história para os personagens.

No fim, o Punpun não se matou, quem se matou foi a Aiko.
Ela já iria morrer mesmo pelo estado em que estava, todavia para ela foi mais fácil por outros motivos. Ela estava no fim, não tinha mais ninguém, só tinha o Punpun e a relação deles chegou ao fim. Ela ficou completamente só. O Punpun por mais que tivesse seus problemas sempre teve companhia, nunca esteve completamente só, ele tinha um mundo de gente para abandonar para poder se matar. A Aiko não, tinha ele, momentaneamente e ele acabou. Ela não tinha nada para abandonar, logo para ela foi mais fácil do que para ele.

O meu verdadeiro problema com esse volume final, e digo que é o grande problema do volume em si e não apenas minha opinião sobre ele, é sobre o tom que não se decide se quer acordar ou sonhar. Me faz lembrar do final de Bem Vindo a NHK. As lições aprendidas são semelhantes, eu entendo porque sou uma pessoa como o Punpun e o Tio dele, nós não conseguimos nos ver no mundo como a maioria das pessoas, existe uma distância entre nós e o mundo e as pessoas. Boa Noite Punpun mostra uma grande quantidade de personagens que são normais e são representados de formas anormais, e personagens anormais que são representados de formas normais. Existe esse diálogo ali que faz parte da ideia do mangá, todo mundo tem algo que tenta esconder ou expressar, é normal. Personagens como o Punpun e o Tio, e eu mesmo, ficam presos no dilema entre ser e não ser e não saber o que é, de nunca se sentir confortável. No final eles aprendem um pouco a controlar essa confusão mental para poder viver o dia a dia. Em NHK é assim de certa forma, o Tatsuhiko e a Misaki não se curam, eles continuam com as loucuras deles, mas aprendem a conviver com elas, a conviver com quem eles são e com os outros. Porém, aonde Bem Vindo a NHK é extremamente claro, direto e descompromissado nessa mensagem, Boa Noite Punpun é extremamente ambíguo e confuso. É até difícil saber o que está acontecendo, se está acontecendo, se é uma representação fiel dos acontecimentos ou se é ilusão e delírio. Achei isso desnecessário, poderia ser mais leve, só causou dúvida no leitor.
As cenas finais são positivas, porém muito fantasiosas. Sabemos que o Punpun aprendeu algo, aprendeu a ser ele mesmo, vai se sair melhor no dia a dia e sofrer menos com as coisas, mas e o restante? Ele foi preso por exemplo? Como ele não foi preso, isso parece impossível. As cenas finais também sugerem que o rosto dele ficou normal, somente para não mostrá-lo e mostrar novamente o Punpun completamente caricato. Qual a aparência real dele? O Punpun realista ou o Punpun pássaro?

Eu fiquei chateado com esses problemas da narrativa, muita coisa pareceu fazer menos sentido do que deveria. Não tenho problemas com não entender o Punpun, nenhum. Na verdade acho que isso faz parte, ele é ele, só ele vai saber. No volume anterior descobrimos o quão pouco sabemos do Punpun, a vida dele sempre foi um mistério, é como se ele nunca tivesse mostrado para o leitor e até escondido de propósito. Aquelas falas indiretas dele são um instrumento disso, o que está escrito é realmente o que ele diz? Não, é o que ele pensa? Talvez. Sachi ao procurar por ele descobre várias coisas que ela não fazia ideia que ele fazia, e nós também não, nunca foi mostrado, nunca foi dito. O que mais nós não sabíamos dele?

No final Boa Noite Punpun é um mangá como o editor da Sachi havia dito, pretensioso e com pseudos problemas. A situação familiar do Punpun foi complicada, a da Aiko também. Porém eles poderiam superar, infelizmente são pessoas que não conseguiram ou quando tentaram falharam e isso tornou a situação deles pior.
O mangá acabou como sugerido, com o Punpun aprendendo a ser importar menos com os problemas reais e fictícios e tentando viver de forma mais natural e descompromissada possível para poder aproveitar a vida. Tudo que aconteceu até ali é apenas história para contar, não tem mais importância, muita coisa que deveria fazer sentido ou que procuravam sentido não tinha, pequenas coisas que passavam despercebidas tinham sentido. E isso varia de pessoa para pessoa, Punpun é só mais um, a história dele não é mais interessante do que a dos outros personagens da trama, ele só tinha destaque por ser o protagonista e o narrador, mude o foco para qualquer outro personagem e o Punpun se torna figurante. E assim é a vida.

Gostei de ler Boa Noite Punpun, porém é bem como eu já sentia a muito tempo, esse é um mangá vazio, ele tem reflexões apenas, nenhuma resposta ou inspiração. É um exercício masoquista de leitura, me pergunto se é atemporal ou não. Imagino que idiotas como eu e o Punpun e o Tio sempre existirão, que lerão apenas para se aborrecer como eu e dizer, "é, é assim mesmo", e pessoas diferentes deles que lerão tentando encontrar um sem fim de significados ocultos e simbolismos, um "algo a mais", quando na verdade é uma história de "algo a menos".