Eu Preciso Parar de Ler Romances “Japoneses”, e Você Também.

Uma angústia que vem me consumindo a muito tempo, e agora acho que sei qual é a causa.


Faz mais de um ano que eu descobri a existência do Medium e gostei muito da proposta. Logo consegui permissão para escrever, mas depois de publicar um texto eu acabei abandonando o site, voltando aqui raramente para ler uma coisa e outra.

Eu voltei para o Medium por necessidade, por causa de um forte desejo de escrever sobre algo que me perturba, mas até agora não tinha escrito sobre isso por não saber o que exatamente eu deveria escrever, o que exatamente eu deveria pensar, qual era a questão afinal.

Eu decidi me concentrar em um ponto específico e comecei a rascunhar, com título bastante escandaloso e soltando os cachorros abaixo. Por mais que aquele texto cobrisse parte do problema eu não sentia que estava pegando o ponto essencial da questão, e então o rascunho ficou abandonado enquanto eu voltava a matutar e pesquisar mais.

Finalmente acho que entendo…

Porém não tive nenhuma epifania reveladora.

Pensando agora, talvez até seja algo óbvio, só que é muito simples e muito “duro” para eu conseguir admitir de imediato que o problema era aquele. E reconhecendo ser esse o xis da questão, a consequência se torna maior, me faz realmente pensar em abandonar a leitura de mangás que girem em torno de romance, porque por mais que algumas histórias consigam me entreter, o estresse e frustração que me causam faz a leitura não valer mais a pena.
Digo mangás porque eu leio mais do que assisto animes.

E me pergunto: por que outras pessoas continuam lendo, depois de anos e anos, mangás de romance? Como elas conseguem?


Eu disse que tenho um rascunho onde me concentrava em um ponto específico, e vale a pena mencionar ele aqui.

“SEXO”

Imagino que você já tenha pensado sobre isso. Sexo em mangás e animes, sejam romance ou não, é algo muito complicado e raro de aparecer. Não é apenas caso de não ser mostrado por questão de censura e faixa etária, não, é que sexo é um tabu bem forte, não só nas histórias, ao que parece também na sociedade japonesa.

Porém me recuso a aceitar que os japoneses de verdade podem ser tão cabaços!


Aproveitei a estreia de Chuunibyou demo Koi ga Shitai! Ren, por ser uma série popular, e resolvi assistir pelo menos dois episódios para apenas confirmar minhas suspeitas.

Vivendo o sonho?

No final da primeira temporada, os protagonistas Yuuta e Rikka se assumem como um casal de namoradinhos.

Eles já começam a segunda temporada como namorados, e queria ver como se comportariam dali em diante.

Como é de hábito em animes e mangás, de os personagens terem pais de ausentes a inexistentes, a Rikka, mesmo sendo uma “doente mental” é deixada em casa sozinha enquanto seus parentes viajam para longe. O que força o Yuuta a tomar conta dela e eles praticamente morarem juntos, já que os pais dele também viajam para longe, ou algo assim, os detalhes não são tão importantes.

Obviamente que isso os deixa livre para fazer qualquer safadeza que um casal quiser, e é claro, eles não fazem. Nos episódios existe aquela tensão pré-sexual obrigatória entre os dois, mas na prática não acontece nada, afinal, apesar de terem todos mais de 15 anos (ou mais, talvez), eles “não sabem como é namorar”.

Sério, a Rikka diz isso, que não sabe o que tem que fazer. Não me admira uma dúvida dessas afinal como todo bom casal de namorados adolescentes em uma história japonesa, ainda mais para otakus, eles se comportam como completos estranhos para os padrões brasileiros. Absolutamente formais, embora pirados, e não se tocam, apesar de que a Rikka dar umas indiretas de que sente falta disso e quer até algo a mais…


Quando eu falo sexo, não entenda sexo sexo, penetração, nada disso. Pode ser qualquer contato físico, desde dar as mãos casualmente (casualmente pela’mor de deus!), carinhos, beijos, mãos bobas. Eles não precisam fazer sexo de verdade, eles podem até se empolgar e parar no limite, brincar com o perigo, a consumação do ato não é tão importante nessa discussão, ele não é tão necessário, apenas peço pelo uso de todo o restante do repertório dessas interações por entender como algo natural. Por essas bandas até amigos fazem metade disso sem problemas.

A Rikka diz que não sabe que tem que ou como fazer tudo isso, ou se pode fazer (já que ela quer) por ser namorada do Yuuta.

Se apenas ela como adolescente ou até criança não soubesse, não tivesse capacidade para lidar com isso, seria menos mal. Infelizmente os adultos também parecem incapazes disso. A irmã da Rikka volta, descobre que ela está praticamente morando sozinha com o namorado, e começa a repreender os dois. Ela como adulta deveria ter um comportamento mais equilibrado. Se ela não ensinar nada sobre isso para a irmã, aonde ela vai aprender? Ela não quer ser uma boa irmã? É a hora ideal para ter uma conversa sobre tudo isso com a Rikka e supervisionar, mostrar que ela é uma pessoa de confiança para quem a Rikka pode dizer e perguntar sobre qualquer coisa que diga respeito a sexo sem vergonha, uma conselheira. E com o Yuuta também ela poderia ter uma conversa dessas. É o que acontece no mundo real.

Falando em mundo real, para o público que acompanha essas histórias faria um bem danado, seria didático. Omitir e esconder não vai fazer nada de bom para o público não é verdade? Do contrário corre o risco de fazer lavagem cerebral na mente dos jovenzinhos como Asobi ni Iku yo!.

Não ficaria admirado se alguém pensasse que o nariz dele vai apodrecer e cair depois dessa

Ao mesmo tempo, me faz imaginar se o grande crescimento em popularidade de histórias homossexuais não se deve em consequência disso. Essas histórias costumam abordar sexo mais abertamente, de forma direta, sem rodeios e até gráfica.

Elas estão preenchendo esse espaço vago pelas histórias mais comuns? É possível, eu mesmo já fui atrás de ler alguns romances homossexuais, ou que tivesse casal homossexual e apreciei bastante a forma mais direta com que aquelas histórias trataram da questão.


Sexo, é um problema, apenas um.

Eu finalmente escrevi esse texto para falar sobre romances não é?
Pois eles são frustrantes, muito antes de chegar nesse ponto.

O que eu descrevi do casal Rikka e Yuuta de Chuunibyou Ren “não saber namorar” é a regra em qualquer romance em anime e mangá, em especial shoujos que são os que existem em maior quantidade afinal.

Enquanto questionava tudo isso eu tive que ler e ler para poder argumentar.
Um dos mangás que eu peguei para ler, porque eu gostei dele, foi Hirunaka no Ryuusei, que é outro bastião da problemática apontada em Chuunibyou, onde um simples dar as mãos (PRIVADAMENTE!), um simples toque, se torna motivo de escândalo.

Como isso é possível?

Por mais que eu goste de alguns personagens e ache os traços absolutamente adoráveis, é enervante. É muita ladainha e embromação, li vários volumes e mesmo os personagens admitindo que gostam um do outro, até “amam”, e já tendo declarado isso (mais de uma vez), nada acontece. Normalmente o caso dos protagonistas é mais enrolado, mesmo sabendo disso é de tirar do sério ver a protagonista Suzume pensando e pensando, e dando voltas e voltas, e nunca tomar iniciativa de nada, nunca. Mas o que foi de enlouquecer mesmo foi ver a amiga Yukuka, que é estabelecida como uma pessoa mais resolvida e racional e principalmente mais ativa, encontrar uma pessoa que gosta dela e que ela passa a gostar e simplesmente… se recusar a agir, sabe-se lá por quê.

E ela mesma é do tipo de dizer que amor não tem explicação.

Por que a Yukuka que chega a dizer para a Suzume que não adianta pensar demais, que é preciso simplesmente fazer uma escolha, de aceitar ou não, agir ou não, porque no amor não existe escolha certa, por que ela mesma não toma uma decisão sobre a pessoa que gosta dela?

Como o namorico vai ser daquele jeito frio ao estilo deles, não vai mudar muita coisa na prática entre o novo casal, ela apenas precisa abrir seus sentimentos para ele, nada mais.

Não deixe de perceber, tudo se resume e limita a sentimentos e emoções, não ações. Você não pode negligenciar ações em uma história, ou em teoria não deveria não é mesmo?

Nem cito o caso de Hibi Chouchou que é baseado na NÃO interação do casal. Me deu náuseas.


Talvez tudo isso seja consequência de os japoneses verem o amor de uma forma diferente, e veem E encaram mesmo diferente, diferente de nós, aqui.

Eles tem até mais de uma palavra para amor.
É pronunciada da mesma forma, mas escrita de forma diferente e tem pesos diferentes. É muito provável que nas traduções que lemos essa nuance se perca completamente.

Isso afeta tanto assim o entendimento?
Prefiro acreditar que não.


No fundo, o problema não é esse.
Algo a mais sempre me incomodou, eu sabia que o problema não era apenas um diferente parâmetro de vida sexual. Era algo mais profundo e básico, enraizado na mente das personagens de modo que mesmo em mangás com personagens mais velhos que já superaram essas fases os sinais ainda estão lá.
Finalmente, creio que eu finalmente percebi o que é isso, como já mencionei lá em cima.

Nada melhor para explicar do que usar um exemplo, e usarei um outro mangá aqui que está me parece bastante adequado por mostrar o problema de forma bastante agressiva e radical.

É Akuma to Love Song.

Comecei a ler isso faz mais de ano, li uns três volumes e parei por causa do ritmo das traduções. É um mangá que me interessou muito na primeira leitura, por isso à procura de material para pensar nessas questões voltei a ler. Mesmo ainda faltando dois e meio volumes para o final, não creio que algo acontecerá na história que mudará minha opinião. Sendo sincero, depois de tudo que vi ali, eu apenas discordaria fosse o caso.

Somente uma coisa nesse mangá me interessa e nada mais, a sua protagonista, Maria Kawai.

É uma personagem um bocado diferente das que costumamos ver em qualquer história japonesa, uma personagem apelidada de “Demônio”, algo que eu sempre e imediatamente discordei veementemente.

É mais fácil odiar e culpar os outros do que reconhecer e odiar nossos próprios erros.

O problema da Maria é apenas um, ela ter uma boa percepção das pessoas, conseguir perceber suas verdadeiras intenções e sentimentos, e sobretudo, dizer e confrontar isso abertamente na frente de todos.
Esse é o problema dela, ela dizer verdades na cara.
Ela não é uma má pessoa de forma nenhuma, ela é pelo contrário bastante gentil, ela apenas é sincera em excesso. Ela não esconde o que pensa e sente, não esconde suas próprias intenções e opiniões, ela admite praticamente tudo, diz naturalmente. Então por que os outros ficam tão nervosos? É algo que ela tem dificuldade de entender, e por isso ela também acredita no que dizem dela ser um demônio, de ela “corromper” as pessoas.

Essa afirmativa sempre me soou ridícula.

Ela não influencia ninguém negativamente, porque ela não fala mentiras e negatividades, ela fala verdades e positividades. Ela causa catarse. O problema é que a verdade dói mais, muito mais do que qualquer mentira. Mesmo na mentira, o que causa dor é a verdade pisoteada.

Com o tempo, na nova escola para aonde foi obrigada a se transferir depois de ser expulsa da anterior, ela faz amigos. E esses amigos são feitos graças a esse processo de catarse, depois de alguns maus entendidos e conflitos tortuosos. Esses amigos não apenas se acostumam com o jeito dela como eles também são agradecidos por ela tê-los feito encarar alguns problemas que eles tinham e com isso se tornarem melhores e mais confiantes.

Só não gosta quem tem a mente fraca e não quer mesmo, então de cara você já vê que o problema não é a Maria, são os outros.

Não é a Maria que corrompe as pessoas a volta dela, é o contrário, as outras pessoas que tentam sufocar ela antes que sejam obrigadas, intencionalmente ou não, a encarar seus podres com todo sofrimento que o processo exige.


Então grande parte dos problemas da história são causados por esse efeito de “espelho da verdade” que foge do controle dela.

Fica o tempo todo nítido, claríssimo, que o problema é do mundo inteiro, não da Maria. O diabo é que em muitos momentos o mangá parece dizer que não é bem assim, que a existência da Maria não é algo elogiável, que as vezes é até reprovável, que o que ela faz é “feio”. A própria personagem chega a pensar e dizer isso sobre ela mesma em vários momentos, todos em circunstâncias absurdas. Não importa de qual ângulo você olhe as situações nos momentos que ela faz essas afirmações, as atitudes que ela reprova nunca estão erradas, não mesmo! Se é possível apontar uma pessoa certa naqueles conflitos, essa pessoa teria que ser ela que faz o que pode para acabar o conflito através do diálogo.

Por que isso acontece?

Existe um arco inteiro sobre uma amiga da escola da qual ela foi expulsa, e essa amiga é completamente desequilibrada e louca na minha opinião. É sempre sugerido que ainda não foi relevada a história toda sobre elas e sobre o incidente que aconteceu que as envolveu e provocou a expulsão da Maria daquela escola. Quanto mais era revelado mais eu me perguntava, afinal, o que a Maria tinha feito de errado ali.

Quando tudo foi finalmente relevado, eu fiquei em dúvida.
“É só isso? Foi isso que a Maria fez?”
Foi chocante, ela não tinha feito absolutamente nada de errado na minha opinião, ela apenas se comportou como uma pessoa normal, com uma amiga, e tentou defender essa amiga. O erro dela foi agredir uma pessoa da equipe da escola por ter se revoltado pela mesma se recusar a fazer qualquer coisa para ajudar a amiga ou impedir os abusos que ela estava sofrendo. Por que afinal, eles não estavam fazendo nada de errado…

Faça a coisa certa

É uma história bizarra, um dos supostos crimes da Maria foi o de defender a amiga, porque isso fez ela se dar conta de que as pessoas estavam tratando ela mal, deliberadamente menosprezando e abusando dela. Antes ela não tinha percebido, algo fantástico de imaginar. Aquilo insinuava dizer que o nível de interação e socialização daquelas pessoas é normalmente tão baixo e ridículo que elas não conseguem perceber a diferença quando alguém as trata mal?

Uma outra coisa que a Maria teria feito de errado, e ela mesma diz isso, seria ter stalkeado essa amiga, o que é outra afirmação simplesmente absurda e ridícula. Tudo que é dito e mostrado é que a Maria apenas passava tempo com essa amiga, afinal, era uma amiga, e a Maria gostava e demonstrava gostar dela. Mas dar esse tipo de atenção é considerado stalkear. Sabe o que é engraçado? A Maria diz isso para um personagem masculino que passa cada minuto possível correndo atrás dela, dentro e fora da escola, fazendo brincadeiras e insinuações sexuais e tocando o tempo todo o corpo dela de toda forma possível. Ele SIM stalkeia, e ainda alguns poderiam dizer que ele comete assédio sexual, mas não, o que ele faz é absolutamente normal (virilidade, ho!), a Maria que é a errada por ter dado atenção para uma amiga da qual ela gostava e se importava o bastante para defender das pessoas que a estavam tratando mal.

Esse arco chega ao clímax com afirmações como, “a existência da Maria faz ela sofrer”.

É demais uma coisa dessas, como pode alguém criar uma história assim?
A Maria é boa demais, por ver que uma pessoa como ela existe, as pessoas sofrem, e isso faz elas serem pessoas ruins e desprezíveis.


esse é o xis da questão

Eu cheguei a conclusão de que Akuma to Love Song é a história de uma personagem não japonesa condenada a viver no Japão.

Não há como explicar melhor que isso.

Definitivamente a Maria não é má pessoa, não é má intencionada.
O jeito dela de ser tão sincera, direta e aberta realmente pode chocar. Eu passo muito longe de ser semelhante a ela, mas passei por momentos onde acabei dizendo coisas não muito convencionais que acabaram incomodando outros, e quem nunca?. Tem pequenas questões que eu não entendo como são da forma que são, banalidades, se falo o que penso, ou faço do meu jeito, quase todo mundo que vê acaba reparando por “não ser normal”. Parece ou estranho ou inconveniente.

Se mesmo coisas tão simples assim já causam tamanho estranhamento, a vida não deve ser fácil para a Maria Kawai, só que para ela é ainda pior, muito pior, o pior possível, porque ela vive no Japão, um local tão opressivo que as vezes nem é preciso fazer nada para ser repreendido, julgado e condenado.

O caralho que é.

Apontar as maldades das pessoas quando elas te ofendem é uma atitude reprovável? De jeito nenhum e faço questão de me recusar a compactuar com isso.

Por a Maria ser a protagonista, naturalmente o leitor ficará do lado dela, só que não é isso, ela não é vitimizada pela história apenas por dramatizações criadas pela autora, é algo a mais. Só é possível existir essa perseguição do mundo contra a Maria por naquela sociedade existir toda uma base moral e social que valida todas as reprovações contra a personagem e condena o seu modo de ser.

Várias vezes vi comentários de que os estrangeiros para os japoneses são como alienígenas, aparentam ser estranhos pela cultura diferente. Penso o mesmo, os japoneses pra mim parecem seres com cultura e costumes de outro mundo. Ver o reflexo da sociedade japonesa nas histórias deles é como olhar para um filme de terror psicológico, onde existe um grande mau pairando na história e que você não consegue identificar ao certo o que é mesmo que ele esteja à mostra. Os japoneses são um povo oriental aparentemente ocidentalizado, isso faz com que surja uma sensação de estranhamento de que falta algo ali, que algo está errado naquela sociedade, que parece uma imitação falha de uma outra sociedade melhor.

É incrível como quase todas as pessoas, praticamente toda a sociedade se volta contra a Maria por ela não ser desprezível como eles, falsa e hipócrita e tudo isso parecer muito natural para todos, “compreensível”.

A sociedade japonesa é cheia de regras rígidas demais, decoros demais, imagens demais, máscaras demais. Como um professor que a persegue apenas por não gostar, por ele ser mal caráter e rancoroso, por ela não ficar calada diante das babaquices cotidianas dele. Ninguém tem dúvidas de que ele está cem porcento errado cem porcento das vezes, tendo inclusive atingido ela fisicamente, mesmo assim nada acontece com esse professor. Ninguém chama atenção dele, ninguém denuncia, aparentemente porque pessoas assim são comuns, é normal ser como ele.

Posteriormente é revelado que o passado da Maria tem uma “questão de honra”, todavia isso não muda nada. Se a história dela tem alguma polêmica, em especial aquela polêmica, ela não é nada mais que uma vítima e ninguém tem que agir como se a infelicidade dela prejudicasse as pessoas ao redor e tivesse que morrer para elas esquecerem de tudo que ela sofreu, é uma insanidade pensar isso.

Anteriormente eu questionei se o sexo no mundo real por lá é como o sexo nas histórias. Isso é algo que eu não tenho como saber ao certo, mesmo assim arrisco a dizer que esses comportamentos tão nojentos são sim um reflexo de como a sociedade real japonesa é. Conhecemos histórias, relatos, e esses padrões são onipresentes em praticamente todas as histórias vindas do Japão, eu vi todos esses valores em histórias de todas as faixas etárias e praticamente todos os gêneros, não pode ser coincidência.


Voltando um pouco para o início de todos esses questionamentos, eu queria saber se eu estava para abandonar o consumo mangás sobre romance, se seria o melhor a fazer e por qual motivo seria. Se o problema é nas histórias ou se é comigo apenas que necessito consumir de outras fontes, com ideias novas.

Natsu no Zenjitsu

No que diz respeito ao sexo, é em parte a segunda resposta.
Essas histórias tem faixa etária afinal, não vão mostrar o que é visto como não recomendado para ela, então não adianta eu exigir algo aqui que nem é oferecido, mesmo que a história não aparenta que vá ficar no zero a zero, vide o caso de dois personagens do anime Hyouka, também do Kyoto Animation que anima Chuunibyou. O garoto provoca uma situação extrema para recusar indiretamente a amiga findo o prazo de um ano que eles tinham dado um para o outro para ele dar uma resposta para a confissão dela e seu pedido de namoro. Ele recusa ela porque é simplesmente um babaca, e isso não é minha opinião apenas, é o argumento que ele usa. Ele era um babaca, está tentando melhorar, e tem medo de ser um babaca com ela, por isso ele babacamente de forma imbecíl recusa ela sem nem ter coragem de dizer isso de frente. Chega a dar coçeira pelo corpo lembrando de cenas assim em romances em anmes e mangá, tentando já eles já são ruins, nem tentando é melhor ignorar.

Natsu no Zenjitsu

O que mata é que os seinens onde o romance é menos indigente tem pouca disponibilidade, poucas traduções. Algo lamentável porque é um gênero que ainda me dá esperança, ao ver histórias como o muito recomendado Natsu no Zenjitzu, um romance universitário com sexo aberto, não banalizado mesmo tendo em grande quantidade e que aborda questões além pré-escolinha.

Natsu no Zenjitsu

Mangás assim me fazem ainda ter esperança em romances vindos do Japão, mostram tudo, as partes boas e ruins, de fato acontecendo entre o casal que decidiu enfrentar a vida juntos.

No que diz respeito a sociedade japonesa e como ela se reflete nos animes e mangás… não tenho certeza. Tem muitas histórias por ai que eu ainda seria capaz de ler, tenho uma resistência bastante boa para essas besteiras apesar de tudo. Entretanto eu certamente não vou mais procurar por essas histórias de romance. Faz tempo que eu só tenho começado a ler algo do gênero através de recomendações fortes e olhe lá, no final me decepcionando muito.

Procurar voluntariamente agora apenas se for seinen, e talvez josei, com muita boa vontade e muita esperança de encontrar algo que preste.

Esse mangá é muito bonito, cês não imaginam

Se eu quiser ler um romance de personagens que ainda sejam adolescentes… pra mim chega desses japoneses cabaços, existe outras fontes. Por exemplo, tenho ficado muito satisfeito com os quadrinhos coreanos.

A poucos anos a maioria das pessoas nem sabia que eles existiam, eu incluso, e por aqui a maioria que sabia deveria pensar que tudo se resumia a fantasias medievais em preto e branco como as que foram publicadas pela Conrad, eu incluso. Hoje em dia podemos dizer que esses quadrinhos foram descobertos e estão ficando cada vez mais populares, inclusive com um e outro entre os mais lidos em sites de leitura online. Não me parece muito diferente do antigo boom dos mangás de tantos anos atrás.

A sociedade coreana também é restrita, mas aquele povo parece ainda não ter ficado tão doente das ideias. Nos mangás coreanos tenho visto histórias que me satisfazem de várias formas. Vejo menos enrolação, menos embromação, e menos idiotices nos romances, vejo mais história e personagens mais coerentes. O chato vício de os personagens insistirem na ladainha “será que senpai vai me notar? Oh, me notou, não sei o que faço agora!” quase não está presente nos quadrinhos coreanos. Um cínico poderia dizer que na prática não fogem muito do esquema dos mangás, que eles também podem se estender mais do que deveriam, que eles apenas não tem seus piores vícios, o que não deixa de ser verdade e é uma vitória para o leitor.

Além disso tem a qualidade de não raro ter uma carga de crítica social forte.
A sociedade coreana não apenas não aparenta ser tão “doente” quanto a japonesa, eles aparentam se recusar a ser. Algumas histórias são todas ancoradas em alguma pressão social, na maioria das vezes porém insuspeita. Eles parecem ter consciência de seus problemas sociais e como povo e muito dispostos a refletir. Isso dá vigor as histórias, torna tudo mais interessante, você não lê apenas histórias baseadas em uma afirmativa da própria cultura onde você é limitado a aceitar, nos quadrinhos coreanos você é convidado a questionar a cultura de lá.

Mangás, as histórias japonesas, parece que atualmente se limitam a fazer isso apenas na ficção científica.

Girls of the Wild’s

Não, sério, só não coloco um monte de imagem de quadrinho coreano aqui porque as páginas são longas na vertical. Tenho um monte de página de histórias como My Heart is Beating que estão me implorando para eu linká-las.


No final, é um problema cultural crônico.

Depois da fase de deslumbramento com uma cultura, pode vir a desilusão ao se conhecer mais dela e seus mecanismos. Parece que é isso que acontece comigo e com a cultura japonesa, é uma que eu não consigo aprovar por mais que já esteja acostumado a vê-la através dessas histórias. Justamente por isso, depois de tanto contato é inevitável se tornar um pouco crítico . Eu como brasileiro gostaria, ou melhor dizer, necessito, ver histórias que tenham a minha cultura ou pelo menos traços dela que eu possa identificar. A cultura japonesa não pode fazer isso, é totalmente incompatível. Seus personagens parecem mais do que meros estrangeiros, causam um desconforto subversivo da pior espécie. Eu não gostaria nada de ser um japonês do jeito que é mostrado nessas histórias, seria triste e deprimente.

E você que lê isso, que lê e assiste dúzias de romances japoneses, também não se cansa? Ainda existem algumas histórias que surpreendem pelo subtexto, como o anime de Sankarea com seus dilemas de ser amado por quem não quer e não poder amar quem quer, essas histórias ainda me fazem ter vontade de continuar. Ainda assim, com tanta história que se repete, sempre os mesmos problemas e conflitos ou conflitos irreais, interação e progresso nulo dos relacionamentos, você não se sente em nenhum momento cansado, como se a fonte tivesse esgotado?

Após volumes e mais volumes de indecisões, o final dificilmente recompensa, eventualmente o casal vai se unir, e a leitura até lá terá valido a pena? Algo vai de fato mudar no relacionamento entre eles? Quantas vezes irão se separar e se reunir até o final feliz? A melhor parte do relacionalmento começa à partir dali.

São perguntas que não dá para ignorar. Continuar a ler mangá e assistir anime de romance só porque eu gosto de romance não parece fazer sentido. Assim como romances em si, não deveríamos investir nos que podem valer a pena ao invés de nos iludir?

Email me when Intemperanças de Panino Manino publishes stories