Plu-ra-li-da-de

“Fato de existir em grande quantidade, de não ser único; multiplicidade, diversidade.”

Os operários, Tarsila do Amaral (1933)

Dessa vez eu quero falar sobre algumas certezas que temos na vida. Certezas das quais temos certeza. Ora, certeza:

“Qualidade, caráter ou virtude do que é certo ou considerado certo.”

Consideramos muitas coisas certas para que consigamos entender. Homem não sabe voar. Para não explicar que em determinadas condições atípicas (gravidade zero) é sim possível que isso seja certo, tendemos a simplificar as coisas, o erro é aceitar as verdades simples como certas. Certo então é qualitativo: quando te convém está certo (quem gosta de estar errado?). É certo até determinada medida, quando a simplificação passa a estar errada. Ainda, existem as verdades universais: verdades tão profundas que sim, são incontestáveis.

De volta ao design.

A língua inglesa tenta definir enquanto “conjunto de decisões que envolvem a concepção de um produto/ideia”. A língua portuguesa falha:

(Design é) a visualização criativa e sistemática dos processos de interação e das mensagens de diferentes atores sociais. (2010)

Talvez não falhe, mas especifica demais, e quando não especifica “Design é projeto”, como diria nosso Alexandre Wolner. Para explicar melhor eu vou constrastar as duas opiniões:

Vamos definir Design

E quem sabe nos perdemos no meio

Olhe ao seu redor. Observe os objetos que te cercam. Suas paredes. Vá para uma faculdade de Design. Pergunte para professores. Leia livros, tire sua definição que mais lhe contemplar. Mas para que? Por que precisamos definir o que é design, que senão o ofício do Designer? Engenharia é o que o engenheiro faz, agricultura é o que o agricultor faz, não?

Mas precisamos saber o que é Design para que assim consigamos fazer design. Então vamos aprofundar: Design nessa concepção analisa as práticas e ideologias envolvidas no fazer, ou como diz Wollner, no projetar. Você tira do ofício uma definição. Quis comparar as línguas inglesa e portuguesa quanto a diferenciação do design pelo mero motivo de que Design é uma palavra inglesa. Prontamente você sabe responder o que é desenho, não?

Desenho X Design

Eu desenho e por isso prestei design. O designer portanto sabe desenhar, não? Sim, utilizamos do desenho enquanto recurso visual para expressar nossas ideias. Afinal, do que é um designer sem ideias? Mas para aí. Ilustradores não necessariamente usam uma tablet bamboo, um papel ou uma tela. Eu posso desenhar sobre o chão com uma vassoura e um pote gigante de tinta, não? Os meios não são o problema, mas os fins. Tendemos a ignorar o processo para avaliar o resultado: se ela faz isso ela é de produto; se ele faz isso é web designer. Esse parágrafo foi só para explicar brevemente a diferença entre um designer e um desenhista: nem todos são os dois. Eu posso desenhar e ser arquiteto ou engenheiro, mas eu também posso ser designer sem desenhar.

Definamos, então

Não quero dar uma frase ou palavra que defina, mas, por outra ótica, explicar: o design é a prática do designer. Sequer conseguimos contar na ponta dos dedos quantas diferentes nomenclaturas já ouvimos para design em suas mais diferentes vertentes: design de bolos, fashion design, design de ambientes, jogos, sites, móveis; e a lista continua. O produto sequer nos ajuda a começar por uma explicação.

Então partimos do começo: da sua faculdade. Você fez design e isso te foi ensinado. Você tem seu diploma de designer. E você faz o que você quiser com esse diploma, inclusive você pode decidir ignorá-lo completamente para fazer outra faculdade. Mas você é designer e vive design, logo, o que você produz é design. Constantemente criamos novos conceitos de design, novos projetos, novas visualizações, ideias. O design não está no objeto mas no produtor: Design (volto a frisar) é o que um designer faz.

Mas se você quiser uma frase, eu dei uma excelente lá em cima.

Alexey Romanowsky: https://vimeo.com/65468064

Por que não definir, então?

Porque sim. Bobo.

Eu retribuo com a retórica: para quê, então?

Porque não cumpre propósito algum. Definir design seria interesante em certos âmbitos como a regulamentação da profissão, mas para outros seria uma pena. Somos umas das profissões mais recentemente desenvolvidas, ainda mais no Brasil, e que, por essa história curta, estamos em processo de construção ainda. De tal forma que o Design que eu faço e que você faz dá a cara do Brasil para outros designers. Eu quero fazer design com palitos de fósforo e um botijão de gás.

(preciso parar de usar exemplos extremos)

Meu argumento é de que ao definirmos algo, limitamos algo. Limitamos devires possíveis, ou como a maioria conhece, potências. Um engenheiro perdeu seu devir artístico ainda na escola. O designer perdeu seu devir matemático no vestibular. Mas o designer, por não ter definida sua profissão, pode resgatar esse devir a qualquer momento. Programação procedural de modelagem em jogos.

Devires infinitos, Pluralidades e Multiplicidades

“Devir é nunca imitar, nem fazer como, nem se conformar a um modelo, seja de justiça ou de verdade. Não há um termo do qual se parta, nem um ao qual se chegue ou ao qual se deva chegar. Tampouco dois termos intercambiantes. A pergunta ‘o que você devém?’ é particularmente estúpida. Pois à medida que alguém se transforma, aquilo em que ele se transforma muda tanto quanto ele próprio. Os devires não são fenômenos de imitação, nem de assimilação, mas de dupla captura, de evolução não paralela, de núpcias entre dois reinos.” (DELEUZE, 1998)
“A multiplicidade não deve designar uma combinação de múltiplo e de um, mas, ao contrário, uma organização própria do múltiplo enquanto tal, que não tem necessidade alguma da unidade para formar um sistema.” (DELEUZE, 1998)

Talvez com um excerto sobre devir as coisas tenham ficadas mais claras. Somos múltiplos e nossos ofícios também. O designer assumiu a importante função em nossa sociedade como uma das profissões mais criativas, carregamos um peso sobre nossos ombros, que nos estimulam a cada vez mais ter ideias originais e soluções inteligentes para problemas complexos. Como podemos fazer isso se limitamos nosso campo de ação?

Um designer então manifesta devires plurais, diversos conhecimentos, ofícios, referências; agrega diversas áreas para propor uma união harmônica entre elas. Em outras palavras: podar nossas asas seria suicídio social.

E a profissão? Regulamenta ou não?

Ótima pergunta.

Referências:

Livros:

SCHNEIDER, B. Design, uma introdução. São Paulo: Editora Blucher, 2010.

DELEUZE, G. Dialogues, com Claire Parnet, Paris, Flammarion,1997; reed. aumentada, Champs,1996. [Ed. bras.: Diálogos, São Paulo, Escuta, 1998]

________Différence et répétition, Paris, PUF,1968. [Ed. bras.: Diferença e repetição, São Paulo, Graal,1998.]

ZOURABICHVILI, F. O Vocabulário de Deleuze. Trad. André Telles, 2004.

Links:

Alexey Romanowsky: Tumblr e Vimeo

Design na wikipedia

Design pelo UK Design Council

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