Convivendo com introvertidos

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Para começarmos, é importante estar claro que introvertidos diferem entre si. Alguns são mais contemplativos, outros são mais afetivos e outros puramente racionais. É claro, todos os seres humanos diferem e cada característica em evidência vai trazer uma dinâmica nessa convivência completamente diferente, mas aqui eu vou tentar pontuar os traços mais comuns.

Seria perfeito se todos os introvertidos que convivem conosco soubessem que são, soubessem o que é isso e no que essa característica implica, mas não é bem o que acontece. Geralmente é você — consciente da sua introversão — convivendo e interagindo com mais um monte de introvertidos que não fazem ideia do que isso seja e por isso é tão importante estar mais e mais consciente sobre a sua introversão e a de quem convive contigo.

Comunicação

Creio que seja de consenso que introvertidos, no geral, não se comunicam bem. E eu não falo de um skill que precisa ser desenvolvido, eu falo especificamente da dificuldade que enfrentamos em dizer o que realmente passa pela nossa cabeça e de externar claramente os nossos sentimentos. O que deveria sair como “você é uma pessoa muito agradável e eu gosto de você”, sai de qualquer outra maneira muito mais difícil de ser compreendida. E dado o fato de que tem um introvertido do outro lado te ouvindo, é um problema ainda maior.

Julgamento

Pois introvertidos têm uma facilidade incrível de julgar — e não demonstrarem que estão julgando — negativamente. Então enquanto você se esforça para dizer algo com alguma clareza, o outro está capturando estímulos subjetivos a seu respeito e te julgando. Isso é um risco, pode gerar desconfiança entre as partes.

Sentimentos

Sentimento é uma categoria difícil para nós. Se o introvertido é do tipo pensativo, ele tem dificuldade em perceber seus sentimentos e externá-los de modo compreensível; se ele é do tipo afetivo, a dificuldade é a de transformar as emoções em algo comunicável — afinal, sentimento é algo que precisa ser racionalizado para ser transformado em palavras, mas quando o pensamento não é seu forte, como é que você se comunica?

Se ele é do tipo contemplativo, ele se perde em sua auto contemplação e se confunde na hora de dizer o que sente.

O ponto em comum é: o que sentimos não transparece. Quem está do lado de fora não consegue enxergar que estamos sentindo e o que estamos sentindo. E a nossa comunicação acerca dos nossos sentimentos também não é muito compreensível porque nos perdemos em nossas próprias abstrações.

Pra mim, é a minha maior dificuldade. As pessoas que convivem comigo com alguma frequência me chamam de “coração gelado”, “sem sentimento”, porque elas têm a ideia de que eu sou indiferente as minhas próprias emoções e as emoções dos outros. Talvez quem me leia tenha uma outra ideia sobre mim — eu espero — porque escrever, pra mim, é sentimento, mas eu em carne e osso, sou pouco expressiva — é o que dizem. Então aparentemente eu sou uma pessoa que não se importa com o que está acontecendo.

E como convencer o outro de que você realmente se importa quando sua expressão facial e mesmo seu tom de voz — aparentemente — dizem o oposto?

Desentendimentos

A dificuldade em expressar os sentimentos e em se comunicar combinado com a facilidade que temos em julgar tende aos desentendimentos. Não me refiro aqui que introvertidos briguem mais do que extrovertidos ou algo do tipo, não. Digo que, após o acúmulo de incompreensões e confusões de avaliação, é possível que desentendimentos ocorram.

Entretanto, não é a brigas que estamos destinados, de modo algum.

Respeito

Na verdade somos mais propensos ao entendimento e colaboração do que a desavenças. O cenário acima é possível quando tipos incompatíveis de introvertidos convivem — algo perfeitamente possível em qualquer temperamento de indivíduo.

Como introvertidos anseiam igualmente por um tempo sozinhos, é mais fácil de haver respeito na relação, pois eles estão constantemente cultivando hábitos que os façam bem e não ficando próximos a ponto de criarem atritos. Eles estão respeitando suas individualidades e não cometendo sacrifícios em prol do outro.

Privacidade

O respeito se dá justamente pela privacidade que cada um busca e fornece ao outro. Se eu quero passar o dia lendo e quem convive comigo também, é mais fácil de ambos — individualmente — termos privacidade. Introvertidos não gostam de pessoas que pareçam “invasivas” e conviver com um introvertido, quando você também é um, tem esse benefício.

Empatia

Ainda que o outro não conceba o que seja ‘introversão’, é mais fácil que introvertidos se entendam. Empatia é uma característica forte no introvertido, ou seja, é muito provável que o outro compreenda o que ocorre no fundo do seu coração e na imensidão das suas ideias. É muito bom quando encontramos introvertidos que estão alinhados com quem somos. A constante sensação de “nossa, você é igual a mim” é muito boa. E essa conexão supera qualquer desavença ou aparente apatia que surja.

Compreensão

A compreensão presente fortalece as relações — quaisquer que sejam elas — e as aprimora. Introvertidos não gostam de sensação de que seus amigos, familiares e afins estão infelizes ou insatisfeitos com sua presença e/ou companhia. É essa compreensão e busca por melhores relacionamentos que nos torna tão bons amigos.

Conclusão

Ok, você se deparou com um introvertido que difere totalmente do seu tipo. E agora? A comunicação talvez fique tensa, ou talvez vocês se afastem demais para evitarem possíveis desentendimentos. Qual a solução?

Empatia

Você pode não entender o tipo específico de introvertido que está na sua frente, mas compreende algumas características gerais que ele possui, então em algum aspecto você consegue se colocar no lugar dele. Além da empatia, é importante mostrar-se vulnerável: fale o que você pensa e sente ao outro. Se for difícil verbalizar, escreva. Explique a sua preferência pela escrita e como você consegue ser mais claro emocionalmente quando se comunica em texto. Eu já soube de pessoas que, mesmo convivendo, trocavam e-mails devido a facilidade que uma das partes tinha em conversar por texto.

E escute o outro. Apesar de sermos conhecidos por sermos bons ouvintes, escutar alguém enquanto fala e dar a devida atenção são coisas diferentes. Você pode escutar e concordar sem compreender uma única palavra. Por isso eu reforço a importância de ouvir o outro: alguém confia em você e está se abrindo, a expectativa da pessoa é que você a escute e a compreenda. Faça isso.

Além de tudo isso, converse sobre introversão com o outro. Explique o que é, quem sabe a consciência a respeito desse traço possa ajudar o seu convívio com outro introvertido. E compartilhe o Introverso também, os textos contidos aqui podem auxiliar no estudo desse traço tão rico que nós possuímos.

Alguma dessas características estão evidentes em você? Ou então, muito evidentes em quem convive com você? Você já parou para observar a transformação nas suas características de introvertido ao longo dos anos? Faça esse exercício, é muito interessante.


Fonte: Tipos Psicológicos — C. G. Jung