O que acontece quando introvertidos convivem com extrovertidos?

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Visualizar esse cenário é muito fácil: em um mundo de destros, os canhotos sofrem por terem que se ajustar a um mundo que não foi feito pra eles. O mesmo vale para temperamento: numa cultura que supervaloriza e superestima os extrovertidos, ser um introvertido tem os seus problemas.

Eu sou introvertida e cresci numa família de introvertidos: meu pai e minha mãe também são. Mas não se manteve assim por muito tempo, minha filha é extrovertida. Isto significa que eu tenho que ouvi-la falar, pular, gesticular e gritar em demasia. Minha filha é excessivamente expressiva. Eu a admiro muito, pois eu sempre quis ser assim e “nunca consegui” — eu tentei durante 25 anos, até entender que eu estava tentando ser alguém que eu não fui programada para ser. Até nas brincadeiras nós duas divergimos: quando criança eu adorava quebra-cabeça, pintar, desenhar, escrever poemas, jogo da memória e ela, bom, é assustador ver o quão facilmente ela se entedia com estas atividades. Ela gosta de brincar de personagens: ela pega alguns bonecos e estabelece um diálogo entre eles. Essa atividade, pra mim, é um pé no saco.

But there’s something inside me that despairs when she asks me to improvise conversations between Rainbow Dash and Twilight Sparkle. (Yes. I know their names.) The whole scenario exhausts me…
Introvert Parents, Extrovert Kids — Quiet Revolution

O problema em ser uma mãe introvertida e ter uma filha extrovertida é quase o mesmo presente em qualquer outra relação em que o seu companheiro é extrovertido: eu não atendo as necessidades dela da forma que ela espera e vice-versa. Dizem que sou uma boa ouvinte, entretanto eu detesto ouvir conversas rasas. Geralmente eu as escuto porque fico sem jeito de dizer “por favor, cale a boca, eu não aguento mais”. Eu também sou frequentemente interrompida quando tento conversar com pessoas extrovertidas e elas não demonstram culpa alguma em terem me interrompido, elas realmente acreditam que o que elas têm a dizer é muito mais importante do que o que eu queria falar nas 280 vezes anteriores em que fui interrompida. E no final, elas sentem-se frustradas porque esperavam que eu interagisse mais, risse mais, gesticulasse mais. E eu sinto, após minha fúria se dissipar, que eu deveria ter dado mais da minha atenção aos meus amigos. Eu não percebo que isso tudo no final das contas enfraqueça as minhas amizades, mas penso que eu poderia ter me esforçado mais para fortalecê-las.

O mesmo ocorre quando eu tento transformar meus amigos extrovertidos em ouvintes: a expressão facial que eles fazem enquanto me acompanham em minhas divagações parece tão vazia, entediada, tão ausente de atenção e concentração. É comum eu interromper o que estou falando e perguntar: você está prestando atenção? você quer continuar me ouvindo? se não quiser, pode me avisar que eu paro de falar, não tem problema.
Quando eu peço a opinião deles, entretanto, eu vejo excelentes opiniões, observações, criticas e sugestões que eu não havia pensado antes. Eu me sinto extremamente grata por aquele papo enriquecedor. Mas me gera tanta insegurança aquele momento em que eles estão apenas me ouvindo, pois parecem cheios de tédios. Assim como eu penso que eu deveria saber atender mais as necessidades de um extrovertido, eu acredito que um extrovertido deveria se empenhar em atender melhor as necessidades de um introvertido.

Além da diferença na forma de comunicação e de resposta entre extrovertidos e introvertidos, há também a forma de mostrar apreciação, carinho e amizade. Quando eu gosto muito de alguém a ponto de me sentir extremamente à vontade com essa pessoa, eu mostro as músicas que eu ouço, os livros que li, os filmes e seriados, pergunto a opinião da pessoa sobre determinados assuntos e o mais estranho — principalmente para os extrovertidos — eu falo sobre contemplação o tempo todo. Eu posso ser uma introvertida, mas o mais presente em mim é o comportamento contemplativo: eu amo contemplar música, o horizonte, o pôr do sol, as árvores e as nuvens. Pra um extrovertido clássico, isso deve parecer loucura. E eu não duvido que meus amigos extrovertidos pensem: se eu estou aqui do lado dela e ela está há 10 minutos olhando fixamente para o céu, então ela deve estar odiando a minha companhia.

E eu enfrento os mesmos problemas com os meus amigos extrovertidos: nós estamos conversando, a conversa está ótima, de repente a pessoa me chama para sair e convida mais uma galera para ir junto. Eu penso: se a pessoa está chamando mais um monte de gente, é porque ela não aprecia minha companhia. Eu devo ser uma pessoa muito chata e entendiante.

Então, há essas diferenças quando se convive com pessoas de temperamento diferente. O que eu aprendi é: respeite o seu temperamento, não tente imitar o outro coleguinha que é mais agitado que você, isso não vai acabar bem pra você. Ensine — ou imponha, se necessário — os outros a respeitarem o seu temperamento, mas não exija de seus amigos mais do que eles podem dar. Não peça para o seu amigo extrovertido contemplar as nuvens com você. Não convide seu amigo introvertido para ir a um bar com mais 25 pessoas. Não reclame se sua filha sentir-se entendiada por te ajudar a montar um quebra-cabeças de 100 peças. E não se force a fazer a voz da Rainbow Dash. rs

Se você é um introvertido, o aprendizado mais valioso que eu posso compartilhar é: não se mostre uma pessoa disponível. Extrovertidos adoram alugar o ouvido de um introvertido. Não seja aquela pessoa que vai estar lá para ouvir, quando alguém quiser falar. A não ser que você realmente queira ouvir, é claro. Uma excelente forma de não criar atritos é ser sincero consigo mesmo e depois ser sincero com os outros. E fale, se necessário: “Eu sinto muito, mas não posso te ouvir agora”, “Eu aprecio o seu convite para sairmos hoje à noite, mas já me programei para passar esse tempo terminando de ler um livro, ou acompanhando o meu seriado favorito”.

E você, é um introvertido ou extrovertido? E como convive com os temperamentos diferentes?